O alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) que classificou os casos de microcefalia – associados ao zika vírus – como uma emergência de saúde pública de importância internacional veio acompanhado de medo e pânico. A reação da norueguesa Lene Tjorhom, de 30 anos, que há sete vive no Brasil, é um exemplo claro.

Grávida de 3 meses do primeiro filho, fruto do relacionamento com o brasileiro Leonardo Ribeiro, de 40 anos, ela decidiu abandonar a capital carioca e voltar a Stavanger, ao norte no país europeu. O objetivo é se afastar das dúvidas e temores que envolvem a doença transmitida pelo Aedes aegypti e do risco de ter um bebê com complicações neurológicas.

“Preferi colocar minha vida na espera do que arriscar a ver meu filho sofrer por uma vida inteira. A gente ainda tem muitas dúvidas, não sabe, por exemplo, se a quantidade de repelente que usa é suficiente nem se aquilo protege de verdade”, conta a professora de inglês, que embarca no próximo sábado. De lá, ela só pretende voltar quando o bebê tiver completado 3 meses, em meados de outubro.

Aborto na web

O alerta vermelho para o zika vírus também reacendeu o debate sobre o aborto que, no Brasil, só é permitido em caso de risco à vida da mãe, quando a concepção resultar de um estupro ou quando o feto for anencéfalo. Uma ONG holandesa vem oferecendo pela internet pílulas gratuitas para grávidas infectadas com o zika. A substância, diz o site, garante um aborto medicinal seguro.

Alarmada pela situação, sobretudo no Brasil, a fundadora e diretora da Women on Web, Rebecca Gomperts, pediu ao governo brasileiro que não intercepte os pacotes enviados ao país, pelo menos enquanto durar a epidemia de zika.

Mais de 680 depoimentos de brasileiras que realizaram aborto foram publicados no site. Nessa terça (2), o médico Dráuzio Varella se posicionou sobre o assunto. Segundo ele “o aborto já é livre no Brasil. É só ter dinheiro para fazer em condições até razoáveis. Todo o resto é falsidade. Todo o resto é hipocrisia”, disse em entrevista a uma emissora de televisão. Ele não disse, porém, se é a favor ou contrário ao aborto de bebês diagnosticados com microcefalia. “O importante é dar liberdade aos que pensam diferente. Essa é a questão fundamental”, afirmou.

Pedido no STF

O grupo de advogados, acadêmicos e ativistas brasileiros que articulou a discussão sobre aborto de fetos anencéfalos no Supremo Tribunal Federal (STF), acatada em 2012, prepara uma ação similar para pedir o direito ao aborto em gestações de bebês com microcefalia. A ação deve ser apresentada em até dois meses.

Segundo a OMS, a cada dois dias, uma brasileira morre em decorrência de abortos malfeitos. Além disso, um milhão de procedimentos clandestinos são realizados no país todos os anos.