Rompimento de barragem afetará o Paraopeba por gerações e chuva ameaça a saúde dos ribeirinhos

Bernardo Estillac
bernardo.leal@hojeemdia.com.br
19/01/2022 às 20:15.
Atualizado em 21/01/2022 às 12:16
 (Felipe Werneck/Ibama/site TJMG)

(Felipe Werneck/Ibama/site TJMG)

Os efeitos do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte, em janeiro de 2019, serão sentidos por moradores de regiões próximas ao rio Paraopeba por muitas gerações, afirma o limnólogo e consultor ambiental Ricardo Motta Pinto Coelho.

Na terça-feira (19), o governo de Minas notificou a Vale cobrando medidas de limpeza e apresentação de um plano de ação para áreas impactadas pelas enchentes do Paraopeba. O rejeito da mineração escorreu para o rio, onde ficou sedimentado.

Ricardo Pinto Coelho afirma que o rio Paraopeba é muito oxigenado e isso faz com que os metais presentes na lama da barragem fiquem oxidados, não se dissolvam na água e se sedimentem no fundo do rio, sem riscos às populações próximas.

O cenário, no entanto, se altera quando grandes volumes de chuva causam enchentes e transbordamento do rio, como ocorreu nas primeiras semanas de janeiro.

“Com a enchente, muitos materiais e esgoto são carregados para o rio e ele perde a oxigenação. Isso permite que os metais se dissolvam na água. É como se você tivesse um copo de água com açúcar e pegasse uma colher para mexer. Aí começam os problemas”, afirma o pós-doutor.

Com esse efeito, a água ganha rapidamente uma coloração escura e se mistura a elementos como o manganês, que causa disfunções neurológicas e reprodutivas ou cádmio e ferro, que também são perigosos para os seres humanos em concentrações elevadas, explica o especialista. O professor da UFMG, reitera, entretanto que esse revolvimento do leito dos cursos d'água esse é um fenômeno comum. E, inclusive, permite efeitos positivos como o carregamento de nutrientes para plantações. 

Para mitigar os problemas de contaminação da água provocada pelas enchentes, de acordo com Pinto Coelho, é necessário que as mineradoras e as companhias de saneamento básico sejam transparentes com a população.

“As pessoas reclamam porque tomam água ou comem alimentos e se sentem mal, sentem dor de barriga, de cabeça. Esse efeito dura cerca de 10, 15 dias após as enchentes. É preciso que a população saiba disso para poder evitar esses o consumo da água suja durante o período”, explica.

Embora o efeito das enchentes na contaminação das águas seja rápido, episódios assim seguirão como um problema por gerações e gerações para as famílias que moram perto do rio, já que o volume de rejeito é muito grande.

“A limpeza total é difícil e inviável, mas a Vale tem tecnologia para processos de biorremediação. Para que eles sejam praticados é preciso que a população cobre e o governo atue. É assim que o jogo funciona”, comenta.

O limnólogo também esclarece que o problema não se limita ao contato direto com as águas do rio. 

“Às vezes, o cara tem um poço de água limpinha, a uns 500 metros de um rio de águas turvas. Ele bebe ali tranquilamente, mas é a mesma água, só sem os resíduos sólidos”, comenta.

Além disso, os rios e as águas dos lençóis freáticos se comunicam e isso amplifica o problema da contaminação, já que ele pode, por exemplo, chegar até plantações e contaminar alimentos.

De acordo com relatório do Serviço Geológico do Brasil - CPRM de novembro de 2020, houve uma elevação das concentrações de sedimentos em suspensão do rio Paraopeba, quando comparadas amostras feitas depois e antes do rompimento da barragem.

A Vale afirma que o rejeito do minério de ferro é formado em sua maioria por minerais ferrosos e quartzo, sendo classificado como não perigoso e consequentemente não tóxico, de acordo com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

De acordo com a mineradora, existem 70 pontos de monitoramento no rio Paraopeba foram gerados cerca de 5,6 milhões de resultados de análises de água, solo, rejeito e sedimentos. Ainda é realizado o monitoramento automático por meio de 11 estações telemétricas, permitindo assim a medição remota de hora em hora. Informações para acompanhamento dos trabalhos de reparação podem ser acessados no site da Vale.

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