Perder uma pessoa querida ou enfrentar um processo de separação são situações de “partir o coração”, como muita gente costuma dizer. Para algumas pessoas, no entanto, a expressão deixa de ser apenas uma metáfora para tornar-se um problema cardíaco muito semelhante a um infarto agudo do miocárdio.

A síndrome de Tako-Tsubo, também conhecida como síndrome do coração partido, no Brasil, normalmente é causada por um estresse emocional agudo, que provoca uma grande descarga de adrenalina no organismo – traumas físicos, como acidentes ou grandes cirurgias, também podem desencadear a doença. O resultado é uma constrição das artérias, comprometendo o funcionamento do coração.

“O paciente sente dor no peito e falta de ar, simulando um quadro de infarto clássico, com a diferença de ser um efeito transitório”, explica o cardiologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, Antonio Gabriele Laurinavicius.

Distinção

Conforme o médico, no infarto, coágulos são formados em cima de placas de gordura que obstruem as artérias. O procedimento adotado nesses casos é desobstruir o vaso para restabelecer o fluxo sanguíneo.

Na síndrome do coração partido – ou miocardiopatia por estresse –, o cateterismo (exame feito para checar o coração) revela que não existem obstruções nas artérias, apenas um espasmo provocado por uma forte emoção (seja ela negativa ou positiva). Mesmo assim, até que os exames de imagem descartem a possibilidade de uma patologia mais grave, o paciente é atendido na emergência – eletrocardiograma e exames de sangue também podem apontar para um diagnóstico incorreto de infarto.

Estado de atenção

As vítimas mais frequentes de Tako-Tsubo são as mulheres (mais de 90% das ocorrências). “Elas têm que tomar bastante cuidado. O estresse da mulher, hoje, é muito significativo. Já que não temos como evitá-lo, precisamos gerenciá-lo”, alerta o diretor de promoção à saúde da Sociedade Mineira de Cardiologia, Evandro Guimarães de Souza.

Segundo o cardiologista, a boa notícia é que a maioria dos casos da síndrome é reversível, desde que haja diagnóstico rápido e tratamento adequado. No entanto, mesmo com o bom prognóstico, ela não deve ser subestimada.

“Como no infarto, é possível haver uma morte súbita, porque pode ocorrer falência cardíaca. Essa é uma doença que também tem morbidade e mortalidade, não é algo benigno. A paciente deve ser encaminhada ao CTI (Centro de Terapia Intensiva) para ser monitorada”, afirma Souza.

Recuperação

De acordo com Antonio Laurinavicius, o tratamento da síndrome é de suporte, até o coração recuperar a capacidade de bombear o sangue de forma adequada. Normalmente, a paciente utiliza uma máscara de oxigênio e são administrados diuréticos e medicamentos que auxiliam na recuperação do órgão.

“A recuperação é a regra. Geralmente, depois de uma semana ou duas a pessoa sente a melhora e o coração volta ao normal”.

Avanços tecnológicos facilitaram diagnóstico da doença
Pouco conhecida no Brasil, a síndrome de Tako-Tsubo foi relatada pela primeira vez na literatura médica na década de 1990, no Japão. O nome foi inspirado em uma armadilha para polvos (chamada de tako-tsubo) utilizada por pescadores japoneses. O instrumento tem formato semelhante ao do coração com a doença.

Segundo o médico José Pedro Jorge Filho, membro do comitê de Cardiologia da UnimedBH, a síndrome do coração partido tem se tornado mais conhecida e descrita com o passar do tempo, em razão do preparo maior dos hospitais e dos avanços tecnológicos dos exames de diagnóstico. “É uma coisa meio imprevisível, que pode acontecer em um coração totalmente normal, sem registro de problemas cardíacos anteriores”, ressalta.

Para o cardiologista Antonio Gabriele Laurinavicius, do Albert Einstein, essa miocardiopatia é importante para lembrar o quanto o coração, assim como todo o organismo, é sensível às emoções. “Hoje, temos uma área na cardiologia chamada de comportamental. A relação de fatores psicossociais com a saúde cardiovascular não deve ser subestimada”.

“A síndrome não é um quadro comum. Estamos falando de uma emergência provocada por uma reação orgânica” (Antonio Gabriele Laurinavicius - cardiologista do Hospital Albert Einstein)