A pandemia da Covid-19 não deixa qualquer dúvida: ciência é sinônimo de esperança para a humanidade na luta contra um inimigo voraz. Em todo o planeta, pesquisas buscam a vacina contra o vírus, bem como possíveis tratamentos para essa e outras doenças, além de alternativas sustentáveis para o meio ambiente e as mais variadas invenções. E as mulheres fazem bonito também nessa área. 

Muitas, inclusive, comandam laboratórios importantes, como o da UFMG, referência na América Latina. Formação ampla, competência, muito esforço e dedicação, porém, não as livra de um mal que é desafio para o público feminino em geral até hoje: preconceito, falta de apoio financeiro para as pesquisas, valorização, sem falar na remuneração ainda inferior à de homens na mesma posição.

“A atividade laboratorial exige várias horas de pesquisa, assim como ter, por exemplo, bom preparo físico. Muitas vezes, somos vistas como sexo frágil, que não pode ser apta para essa função”, lamenta Jordana Grazziela Alves, que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, onde desenvolve pesquisas sobre a resposta imune de pacientes graves com Covid-19 e o desenvolvimento de antivirais.

Também nessa linha de frente está a professora adjunta do Departamento de Demografia Raquel Zanatta Coutinho. Ela investiga se as consequências da Covid e do Zika serão diferentes para a mulher de acordo com características da região geográfica, raça, idade e condição socioeconô-mica.

Lisia Ester UFMG

Lísia: “está todo mundo exausto, sem ver a família (devido às pesquisas sobre a Covid-19)”

 

A profissional é ainda mais categórica quando fala sobre os desafios. “A mulher tem que trabalhar três vezes mais e melhor do que o homem para ter o mesmo reconhecimento”. Além disso, ela reclama que faltam financiamentos e visibilidade às pesquisas.

“Todo mundo cansado”
Convidada para dividir a coordenação do ensaio clínico da fase 3 da vacina contra o coronavírus, produzida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, a pesquisadora Lísia Maria Esper comanda equipe de 48 pessoas e ressalta que “está todo mundo cansado, exausto, sem ver a família”.

Destacou ainda como desafio, além da busca pela vacina, a falta de compreensão dos que resistem às regras sanitárias necessárias para conter a pandemia. “Antes uma economia defasada do que vidas perdidas”.

Raquel Coutinho UFMG

Raquel: “a mulher tem que trabalhar três vezes mais e melhor do que o homem”

Uma das cientistas mais citadas do mundo em 2019, Deborah Malta, que é mãe de dois filhos, também relatou sobre os desafios em conciliar afazeres domésticos com o trabalho na universidade e as pesquisas. Professora Associada e pesquisadora da Escola de Enfermagem da UFMG, uma das pesquisas em que trabalha atualmente estuda mudanças psicológicas e comportamentais de adolescentes durante pandemia.

Ciência com maior visibilidade

Para Deborah, a ciência ganhou uma importância maior com a Covid-19: “A ciência ganhou mais reconhecimento na pandemia, assim como o SUS. As pessoas passaram a entender a importância dos estudos e a ciência ganhou grande visibilidade no mundo pela torcida a favor da vacina”, observou.

Deborah

Deborah é pesquisadora da Escola de Enfermagem da UFMG

Mas, em contra partida, cresceu também o negacionismo: “Ao mesmo tempo, cresceu também a anticiência, a crença em ‘curas milagrosas’ e tratamentos sem evidências. Mas ainda sim, felizmente, o apoio a ciência é maior que o negacionismo”, comemorou.

Mulheres fazem a diferença

Ela também relata sobre a diferença que as mulheres fazem no grupo de pesquisa, citando o olhar intuitivo: “Mulheres tem mais sensibilidade para explorar dados, e, também, tem o olhar mais intuitivo para perceber desigualdades”, finalizou.

* Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca