Após cinco anos de trabalho, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) chegaram a um mecanismo que pode ser uma importante solução para combater o vício em cocaína. 

Fabrício Moreira, coordenador do Laboratório de Neuropsicofarmacologia, responsável pela pesquisa, conta que os testes realizados em animais se baseiam na supressão da memória do uso, que estaria diretamente ligada à vontade do usuário de se drogar mais e mais. 

O mecanismo descoberto pode, segundo Moreira, servir de base para a formulação de um medicamento que diminua a vontade do dependente de usar a droga. A ação do mecanismo é concentrada em um dos receptores dos efeitos da cocaína.

De acordo com o professor, a droga age sobre o mesmo sistema neural afetado pela maconha, produzindo substâncias semelhantes ao THC (tetraidrocanabinol). Essas substâncias, chamadas de endocanabinoides, são importantes para modular desejo e motivação e liberadas antes das que geram satisfação.

O estudo partiu das funções opostas que os endocanabinoides têm junto a dois receptores neurais, chamados de receptor 1 e receptor 2. No uso da droga, a substância chega ao receptor 1, o que causa os efeitos da droga. O mecanismo de combate atuaria no receptor 2.“Quando o THC chega ao cérebro, ele se liga ao receptor 1. Logo, agir sobre esse receptor com um medicamento de ação semelhante ao da droga não é boa estratégia. Nossa ideia é trabalhar com o receptor 2 para reduzir o efeito da cocaína sem causar os danos vinculados ao receptor 1”, explica Moreira. 

Experiência 

Os testes para a formulação da pesquisa foram feitos através de animais, que eram colocados em um dos compartimentos de uma caixa e submetidos aos efeitos da cocaína. No dia seguinte, os animais não recebiam a droga e, ao serem levados a outro compartimento da caixa, procuravam o lado em que estavam no dia anterior. Ao notar o comportamento, os pesquisadores passaram a injetar substâncias sintéticas produzidas para testes nos receptores neuronais, estas eram ligadas ao receptor 2 e, assim, apagavam a memória da droga nos animais. 

Além de analisar o comportamento dos animais, a pesquisa também se voltou para o método celular no intuito de identificar a região do cérebro onde as substâncias reagem. Segundo Fabrício Moreira, sempre que é ativado, o neurônio sintetiza ­proteínas, e essa atividade pode ser detectada. “Importa saber em que parte do cérebro a ação ocorre para entender melhor como o processo se dá”, comenta o pesquisador. 

Próximos passos 

Agora, o laboratório vai investigar o interior da célula onde as substâncias reagem em parceria com outras instituições. A intenção, segundo Moreira, é descobrir que proteínas são modificadas e se o mecanismo de ação da cocaína se aplica a outras drogas, como a nicotina e o álcool.