Em busca do corpo perfeito, principalmente no verão, muita gente adota dietas mirabolantes indicadas por conhecidos ou disponíveis na internet. Alimentar-se somente com chás ou líquidos, em geral, ou comer apenas proteínas são algumas das loucuras que as pessoas fazem, por conta própria, na tentativa de fazer as pazes com a balança. Mas o resultado, além de ficar longe do esperado, pode comprometer seriamente a saúde.

A pedagoga Rachel Frizeiro, de 35 anos, começou a restringir a alimentação aos 16. Nesse intervalo, tentou até as dietas da pipoca e a da melancia – que consistem em comer a mesma coisa e nada mais –, acreditando que enxugaria alguns quilos. “Jogava no Google algumas palavras-chave e o que aparecia eu tentava, com certeza. Ia a livrarias e procurava direto pelas publicações de dieta mais vendidas”, conta.

Em algumas tentativas, Rachel conseguiu emagrecer, mas acabava recuperando depois o peso e outros quilos extras. Além da frustração, ela enfrentou problemas mais graves.

“A cada dieta que eu fazia, voltava doente. Fiquei pré-diabética, hipertensa e ainda descobri que não tinha mais metabolismo para isso. Podia comer só uma folha de alface e caminhar que não emagrecia mais”, lembra a pedagoga. Hoje, ela segue à risca as recomendações da equipe de profissionais que a acompanha.

Riscos das dietas mirabolantes aumentam nesta época do ano

 

Alerta

De acordo com a nutricionista do Instituto Mineiro de Obesidade e Cirurgia, Ana Paula Meireles, casos como o de Rachel são comuns. Segundo ela, 100% dos pacientes que chegam ao consultório já tentaram fazer, pelo menos, uma dieta sem acompanhamento.

“E 95% já fizeram uso de medicamentos inibidores de apetite, causadores de desequilíbrio hormonal. Mas eles próprios percebem que não adianta e vêm para ‘consertar’ o corpo”, afirma.

Para Ana Paula, a agravante das dietas “fáceis” é a falsa ideia de perda de peso. Desidratado, o paciente acredita estar mais magro, enquanto está, na verdade, comprometendo o bom funcionamento dos rins.

“Outros prejuízos gerados pela má alimentação são deficiência de vitaminas e minerais, perda de eletrólitos, que pode provocar perda de memória e hipoglicemia, responsável pela sensação de desmaio, sudorese e vertigem”, destaca a nutricionista.

Insistência

Apesar dos alertas dos profissionais quanto ao risco das dietas “malucas”, o supervisor de saúde e segurança Edigard Raphael Dutra, de 29 anos, insistiu nelas até quatro meses atrás.

A última tentativa foi a da proteína. Comendo apenas carnes, ovo, leite e derivados, ele perdeu sete quilos no primeiro mês, mas, no segundo, recuperou todos eles. “Há cinco anos venho tentando emagrecer por conta própria, mas, na verdade, nunca consegui me firmar em nenhuma dieta dessas. Houve uma época em que tomei remédio, perdi 22 quilos em um ano, mas engordei 30 depois de oito meses”, conta.

Acima do peso, Edigard ainda sentiu na pele o efeito das restrições alimentares impostas ao próprio corpo: alteração de humor, fraqueza, indisposição, alteração intestinal (constipação e diarreia) e queda acentuada de cabelo.

Atualmente no grau 2 de obesidade, o supervisor é candidato à cirurgia de redução de estômago devido a três fatores: varizes, apneia do sono e pré-diabetes. A gravidade da situação fez com que ele procurasse orientação médica e se desse conta do perigo a que se sujeitou.

“Essa busca insana pelo corpo perfeito tem que ter acompanhamento, realmente. Hoje, me arrependo muito de ter tomado medicamento e alterado meu metabolismo para o resto da vida, além de ter corrido o risco de um infarto. Minha dica é que ninguém faça dietas de livros, de malucos”, diz Edigard.

 

Calor e baixa umidade agravam situação por favorecer a desidratação das pessoas

Depois dos exageros das festas de final de ano, tem início a correria para perder peso a tempo de aproveitar o verão. Nessa época, as dietas mirabolantes ganham ainda mais espaço e as pessoas cometem mais erros. Nos últimos anos, o calor e a baixa umidade recordes agravaram a situação.

De acordo com a nutricionista da clínica Be Light Estar Bem, Patrícia Alves Soares, deixar de comer determinado tipo de alimento sem conhecer as implicações dessa restrição pode ser extremamente prejudicial, principalmente, diante do risco de desidratação em um período muito quente e seco.

“O que precisamos para ligar e acelerar a máquina que é o corpo humano são vitaminas e minerais, e não cortar calorias sem conhecimento. A restrição calórica traz forte perda de líquido”, alerta Patrícia.

Segundo ela, as dietas mais adotadas, atualmente, são a da proteína, do chá verde e dos líquidos. Em comum, todas elas têm a privação de nutrientes importantes para o funcionamento adequado do metabolismo e o comprometimento da saúde.

“A gente sempre vê, nessa época do ano, o desespero das pessoas, embora elas tenham tido o ano inteiro para emagrecer. É preciso alertá-las, porque processos radicais podem levar o paciente a ser hospitalizado. Isso é muito sério”.