Somente até julho deste ano, 12 militares do Exército brasileiro tiraram a própria vida, sendo dois em cidades mineiras. O número já ultrapassou os nove suicídios registrados pela corporação em 2016 e está próximo dos 13 casos ocorridos durante todo 2017. Os dados foram divulgados na manhã desta sexta-feira (31), durante o oitavo simpósio internacional de Prevenção do Suicídio, realizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) em Belo Horizonte. 

Criado no século 17, o Exército brasileiro só foi ter uma política de prevenção ao suicídio em 2016, como contou o Coronel Roberto Lúcio Corrêa de Abreu, chefe da seção do Serviço de Assistência Social da 4ª Região Militar, que compreende quase todo o Estado de Minas Gerais. “Até hoje, quando vamos falar sobre o assunto, os documentos oficiais utilizam a expressão auto-extermínio, porque suicídio é um tabu”, disse. 

Em 2016, o Exército criou o Programa de Valorização da Vida, que inclui ações para prevenção desses casos, como orientação psicológica a servidores que estão deprimidos ou fragilizados. Na região da capital mineira, nove pessoas em situações semelhantes foram atendidas este ano. 

Aceitação

A dificuldade em entender que os trabalhadores estão passando por um transtorno psicológico está entre os principais problemas para tratar o suicídio e o sofrimento mental nas Forças Armadas, como explica a psicóloga da equipe de assistência social da Polícia Federal (PF), Wênia de Oliveira Santos. 

“Os trabalhadores são muito impregnados pelo mito do herói, de que precisam ser fortes e dar conta de tudo. O desafio é convencê-los de que estão doentes e que podem aceitar nossa ajuda. A chefia também é um dificultador, porque pode duvidar que a pessoa está afastada por adoecimento mental”, afirmou. Wênia lembra que parte dos profissionais da PF nessa situação deixa de lado as dimensões familiares e sociais da vida e se concentra somente no trabalho.

O cenário na Polícia Federal não é muito distinto do Exército. Segundo a psicóloga, a corporação passou a pensar em estratégias de prevenção somente nos últimos anos. “Antes, a organização buscava se eximir de qualquer tipo de responsabilidade, queria fechar os olhos. Se alguém se matava, diziam que era porque brigou com a esposa, e não por uma conjunção de fatores”, relatou. 

O atendimento psicológico da PF, no entanto, ainda é limitado, como afirma Wênia, e o grande desafio é que mais profissionais capacitados passem a integrar o time. Hoje, a polícia conta com 18 mil servidores em todo o país, sendo somente 14 psicólogos. Desses, dez estão lotados em Brasília. 

Como a arma de fogo é um instrumento de trabalho, quando um servidor é identificado com adoecimento mental, ele passa por uma perícia, perde o porte de arma e também os equipamentos, que são recolhidos como medida cautelar. O funcionário passa por um acompanhamento de saúde mental. Essa ação é realizada dentro da PF desde 2015. Outra medida adotada pela corporação é realizar palestras e rodas de conversa com familiares, amigos e colegas de trabalho das pessoas que tiraram a própria vida. 

Serviço

Durante todo dia, o CVV realiza o simpósio sobre prevenção do suicídio no hotel Othon Palace, na avenida Afonso Pena, 1.050, no Centro de Belo Horizonte. Os debates serão retomados às 14 horas e vão até 17h30. O evento é gratuito e aberto à população. 

No período da tarde, os participantes acompanharão palestras sobre as novas mídias e a prevenção do suicídio, como o tema pode ser tratado em escolas e por educadores e como ele é visto por minorias e grupos fragilizados, como LGBT.  

Com pedir ajuda

O CVV presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Os 2 milhões de atendimentos anuais são realizados por 2.400 voluntários em 90 postos de atendimento pelo telefone 188 (sem custo de ligação), ou pelo www.cvv.org.br via chat, e-mail ou carta.

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