Falta de atenção, inquietude e impulsividade. A combinação desses comportamentos até é encarada como “natural” em crianças e adolescentes, mas, na fase adulta, pode ter consequências graves quando resulta no diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).


A doença é mais comum na infância, mas às vezes passa despercebida nos primeiros anos de vida, fazendo com que sintomas e desconfortos tornem-se evidentes apenas tempos depois. A questão foi debatida no XXXII Congresso de Psiquiatria, realizado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em Brasília.


No evento, médicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apresentaram um trabalho de identificação e tratamento do TDAH que vem sendo desenvolvido junto a universitários do curso de medicina. Os resultados mostram que acadêmicos portadores do transtorno têm notas piores, mais faltas e notificações e uma chance menor de se formarem quando comparados aos demais alunos.


De acordo com o supervisor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Bruno Nazar, a situação revela-se grave desde a fase do vestibular.


“No Brasil, não há legislação específica para os portadores de TDAH. O que se tem é uma hora a mais para eles realizarem as provas em uma sala separada”.


Consequências


Segundo o médico, embora essa medida seja um avanço, ainda é insuficiente, porque não assegura o ingresso dos candidatos aos cursos superiores. “Não há sequer levantamentos que mostrem se eles realmente conseguem chegar à universidade”.
Outro obstáculo que os universitários com TDAH enfrentam são os impactos na saúde mental. Dentre os principais, autoestima baixa e mais chances de problemas psicológicos e comorbidades (doenças associadas), como alterações na percepção, cognição, inteligência e memória.


Atraso


Para o psiquiatra Maurício Leão de Rezende, um dos diretores da ABP, o diagnóstico de TDAH na fase adulta é menos frequente e normalmente ocorre quando existe alguma falha na identificação do transtorno ainda na infância. Para o adulto, os prejuízos resultantes da falta de tratamento são a principal motivação para a procura por um profissional.


“Muitas vezes, o TDAH reflete tanto no comportamento e na expressão da potencialidade que a pessoa acaba sendo despertada para tentar entender o que está prejudicando-a e, espontaneamente, busca atendimento”.


Em alguns casos, o tratamento psicoterápico precisa ser combinado com medicamentos. Os pacientes podem ter complicações se, ao mesmo tempo, ingerirem bebidas alcoólicas.


“O tratamento, porém, não consiste apenas em quais remédios usar. Abrange ainda cuidados cotidianos e orientações quanto ao desempenho social”, afirma Rezende.


Sintomas simulados para obter remédios


A avaliação de estudantes de medicina portadores de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) pode ser ainda mais complicada do que em pacientes comuns. Conhecedores das psicopatologias, muitos simulam sintomas para ter acesso a medicamentos prescritos em alguns casos.


Bruno Nazar, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que haja quatro motivos principais para essa atitude: melhorar a performance acadêmica, fins recreativos, controle de peso e venda do remédio no mercado negro.
“Para evitar os diagnósticos equivocados, utilizamos um teste para rastreio de simulação, que nos indica se a pessoa avaliada tem ou não o transtorno”, diz.


Segundo Nazar, os sintomas mais comumente simulados pelos alunos são os de hiperatividade. “Provavelmente, por causa dos estereótipos que eles fazem dos reais portadores do TDAH”.


Para a presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), Iane Kestelman, o TDAH é hoje um dos transtornos mais discriminados, principalmente no Brasil, onde ainda se questiona se ele de fato existe.


“O TDAH não é uma deficiência, porque não chega a ser incapacitante. Mas é preciso que haja políticas públicas para os portadores”.

 

Mal atinge até 5 em cada cem crianças


O TDAH é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas. É observado em 3% a 5% das crianças nas várias regiões do mundo onde já foi pesquisado.


Comumente, o transtorno acompanha o paciente por toda a vida, mas os sintomas de inquietude costumam ser amenizados na fase adulta.


Ainda não se sabe ao certo as causas do TDAH, mas alguns estudos revelam que os portadores têm alterações na região frontal e nas conexões dela com o restante do cérebro.


Essa região é responsável pela inibição do comportamento, capacidade de prestar atenção, memória, autocontrole, organização e planejamento.


(* A repórter viajou a convite da ABP)