Com cantos tradicionais e danças em roda, 30 alunos das etnias Xakriabá, Pataxó, Pataxó-Hã-Hã-Hãe e Pataxoop se formaram educadores interculturais indígenas pela UFMG ontem. A graduação completa uma década em 2019 e deve passar por reestruturação do currículo, para que as áreas do conhecimento sejam ainda mais integradas.

Os formandos deste semestre são habilitados em ciências da vida e da natureza e irão atuar nas próprias aldeias, que ficam em São João das Missões, no Norte de Minas, Itapecerica, no Centro-Oeste, e no estado da Bahia. No curso, os estudantes também podem se graduar em línguas, artes e literaturas; matemática e ciências sociais e humanidades, para lecionarem nos anos finais dos ensinos fundamental e médio.

Embora seja uma graduação com duração de oito semestres, como as demais, ela segue um percurso diferente da tradicional carreira acadêmica, centrada no espaço universitário. Os alunos passam, ao longo de 12 meses, 70 dias na UFMG, em Belo Horizonte. No tempo restante, são os professores do curso que vão até as aldeias acompanhar o trabalho dos discentes.

Isso ocorre porque a maior parte dos indígenas já trabalha com a educação de crianças e jovens dentro das próprias comunidades. “Já sou professora e ainda não tinha um curso superior, e a licenciatura nos ajuda a dar um retorno de mais qualidade para nosso povo. Aprendemos com outras etnias e os docentes também procuram ter como base a nossa cultura”, conta Maria da Paixão do Nascimento, de 33 anos, xakriabá de São João das Missões.

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A professora Werymehe Pataxoop viu o pai lutar pela educação indígena

Tradição

Conhecimentos científicos e acadêmicos não ficam de fora da graduação, mas os holofotes estão voltados para os saberes tradicionais. O trabalho de conclusão de curso de Hayõ Pataxó, de 40, teve como ponto central o uso das plantas medicinais para tratar enfermidades. Para isso, ele entrevistou quatro anciãos da aldeia em que vive, em Arraial d’Ajuda, no Sul da Bahia.

“Pesquisei espécies para fazer chá, defumadores ou garrafadas para tosse crônica, pneumonia, câncer e outros tipos de doenças. As ervas medicinais estão se extinguindo por conta da ação do homem, e devemos preservar o que ainda temos”, explica.

Ocupar a universidade

A luta por uma educação escolar indígena diferenciada ganhou força no fim dos anos 1980. Werymehe Pataxoop, de 29 anos, viu o pai à frente dessa causa e conseguiu ser uma das primeiras alunas dele. “Fui para a cidade estudar, mas no dia seguinte minha mãe já me levou para a aldeia porque conseguimos ter aula lá”, relata.

A professora ressalta, ainda, que o curso de formação intercultural para educadores indígenas também demarca a universidade como um espaço de todos. “A gente vê a importância de ocuparmos esse local na UFMG e de reivindicarmos ainda mais o direito a nossa cultura, mostrando que somos capazes de trazer o conhecimento. Se estou aqui não é para mim, mas para a minha comunidade, pois a educação tem um grande poder na luta por território e saúde”, frisa.

O objetivo do curso é que, depois de formados, os professores possam intervir de forma transformadora nas comunidades

Projeto

A licenciatura plena em Formação Intercultural para Educadores Indígenas (Fiei), da UFMG, foi criado a partir do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e é voltado para povos aldeados.

Coordenadora da graduação, a professora Marina Tavares explica que o curso surgiu a partir de demanda das próprias comunidades brasileiras. “Elas queriam ter acesso à formação universitária específica para desenvolver e atuar em suas próprias escolas, trabalhando com a língua e a cultura”, afirma.

O diploma de nível superior é importante para que os professores indígenas possam realizar concursos e processos seletivos para atuar nas aldeias.
Segundo Marina, a reforma curricular busca articular mais as áreas dos eixos de linguagens e ciências socioambientais do curso, além de ouvir novas necessidades dos povos indígenas e incorporá-las no ensino.