O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pede socorro em Minas Gerais. Dos 853 municípios, apenas 486 contam com o serviço, que nem sempre atende com eficiência.

No início deste mês, Montes Claros, no Norte do Estado, interrompeu parcialmente a operação por falta de macas, retidas nos hospitais de cidades da região. Em Santa Luzia, na Grande BH, a assistência está suspensa desde 2013.

Na capital, a deficiência no atendimento está sendo apurada pela Promotoria de Defesa da Saúde do Ministério Público Estadual (MPE). O inquérito civil investiga possíveis irregularidades no sistema, situação das ambulâncias, centrais de operação e condições de trabalho dos profissionais.

Segundo funcionários do Samu de BH, que não querem ser identificados, um dos entraves é a demora para liberação das macas por parte das Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) e hospitais. A espera chega a três horas. “As UPAs as retêm por falta de vagas, congestionando outros atendimentos”, disse um deles.

Tempo de espera

Atualmente, o Samu faz, em média, 261 atendimentos com ambulâncias na capital, por dia. A recomendação é a de que o socorro demore em torno de 13 minutos, mas a espera dos pacientes pode ser bem maior.

A funcionária pública Andressa Silva Alves, de 46 anos, aguardou 50 minutos pelo socorro para o filho, que havia cortado o pé em um acidente doméstico. “O vizinho teve que levá-lo ao hospital. Não fosse isso, poderia ter acontecido algo pior, porque ele perdia muito sangue”.

A professora Maria Eduarda Antunes, de 38 anos, passou por situação ainda mais angustiante. Infartado, o pai dela, Antônio Antunes, de 76, aguardou uma ambulância por 40 minutos. “Tivemos medo de ele morrer, fiquei indignada”.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o tempo de resposta depende da classificação da gravidade de cada caso.

Quando há ambulâncias disponíveis, é a falta de higiene que compromete o serviço. Os funcionários denunciam que não há material suficiente para higienização dos veículos. “Muitos equipamentos precisam ser improvisados durante o resgate”, relata outro servidor.

Após receber as denúncias, o MPE solicitou à Vigilância Sanitária Municipal informações sobre as unidades. O Executivo tem até setembro para responder à promotoria.

Segundo a Secretaria de Saúde de BH, as ambulâncias são verificadas diariamente e passam por higienização e checagem do material. Ainda de acordo com a pasta, oito veículos ficam na reserva em caso de aumento da demanda e no caso de macas de outras unidades serem retidas nos hospitais.

Custos

Em BH, o custeio mensal do Samu é de R$ 3 milhões. Desse total, R$ 470 mil são repassados pela União e R$ 202 mil pela Secretaria de Estado de Saúde. Os valores, de acordo com a prefeitura, são utilizados, entre outras coisas, para a manutenção do serviço, insumos e pagamento à empresa responsável pela gestão das ambulâncias.

Compra de equipamentos não tira Norte de MG do sufoco

Para não interromper a assistência prestada, após ter 80% do atendimento paralisado na semana passada, o Samu de Montes Claros adquiriu 20 macas para cinco ambulâncias. Ao todo, a unidade possui 75 macas que, na maioria das vezes, ficam retidas nos hospitais da região porque faltam camas nessas unidades.

A escassez de equipamentos teria motivado a interrupção do serviço na região. De acordo com a gestora do serviço – a Macro Norte –, 39 macas estão quebradas por mau uso e outras 36 retidas em unidades de saúde.

A gestora afirma que, mesmo com os novos equipamentos, o serviço opera no limite. Os atendimentos paralisados na última semana foram normalizados, de acordo com a assessoria da Macro Norte.

Redução de gastos

Já em João Monlevade, região Central do Estado, o Serviço de Resgate Voluntário (Sevor), criado para fazer atendimentos em oito cidades ao longo da BR-381, está cortando gastos.

Parte da gasolina disponibilizada pelo município foi reduzida. Dos 600 litros liberados por mês para abastecer cinco ambulâncias, agora chegam apenas 350 litros. “Tivemos que readaptar a assistência. Hoje são quatro veículos com combustível para atender durante um mês”, explicou o presidente do Sevor, Humberto Guimarães.

Em nota, a Prefeitura de João Monlevade informou que o município tem um convênio com o Sevor no valor de R$ 100 mil por ano. O contrato prevê o repasse de 350 litros de combustível, pagamento do aluguel do imóvel utilizado como sede pela entidade no valor de R$ 4.500, fornecimento de materiais médico-hospitalares e cessão de um veículo utilizado como ambulância.

Os outros 250 litros de combustível, segundo a prefeitura, eram doados ao Sevor. O corte foi necessário por causa da crise econômica.

Impasse suspende o serviço em Santa Luzia, na Grande BH

Em meio a um impasse sobre a responsabilidade do Samu em Santa Luzia, a população da cidade sofre sem o serviço desde 2013. Situação que colocou em risco a vida do motofretista Leandro Andrade Chagas, de 29 anos, no dia 3 de agosto, ao sofrer um acidente de trânsito no município.

Depois de bater em outra motocicleta, Leandro caiu no chão e bateu a cabeça e as costas. Sem conseguir se movimentar, esperou três horas pelo socorro, que veio dos Bombeiros. “Temos ambulâncias paradas no pátio. Fico angustiado porque Santa Luzia está largada”.

A prefeitura foi procurada pelo Hoje em Dia para explicar a falta de assistência, mas ela não respondeu. Já o Ministério Público de MG investiga o caso. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, o Executivo de Santa Luzia alegou que a responsabilidade é do Estado. Já o governo, ainda de acordo com a promotoria, teria informado que não há verba para renovar o contrato com o consórcio que geria o Samu local.

Diante do imbróglio, o MP solicitou ao Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa da Saúde um parecer técnico para definir de quem é a responsabilidade.

Segundo a Secretaria de Saúde de Minas, o Estado trabalha para implantar o Samu Regional, que deve atender Santa Luzia e os outros 103 municípios da área Central.

Samu pede socorro em Minas Gerais