A seca já obrigou 177 municípios mineiros a decretar situação de emergência antes mesmo do início do período de estiagem, que só começa em 1º de agosto. O número supera em quase 80% os registros do ano passado, quando cem cidades enfrentaram o problema.

A situação coloca em risco não apenas o abastecimento de água para consumo humano, mas também a agricultura familiar, que é fonte de sustento para milhares de pessoas em cidades do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha. 

É o caso de Almenara. Com aproximadamente 40 mil habitantes, a localidade tem 56 comunidades rurais, todas sob o risco de desaparecerem do mapa por causa da seca. “É apenas um caminhão-pipa para abastecer todas as famílias nessa condição. São muitas áreas plantadas que podem ser perdidas”, lamenta Vanda Miranda, secretária municipal de Agricultura e Meio Ambiente.

O problema se repete em Januária, também no Norte, onde quatro caminhões atuam diariamente para suprir a demanda das áreas mais críticas. 

Segundo o prefeito Marcelo Félix, que também é presidente da Associação de Municípios da Área Mineira da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Amams), nos últimos sete anos, o drama se agrava cada vez mais. “Sem recuperação do lençol freático ao longo do tempo, os poços artesianos começaram a ficar sobrecarregados. Se o caminhão para de rodar, muita gente passa sede”.

Racionamento

Em cidades como Águas Vermelhas, Capitão Enéas, Cristália, Taiobeiras e Divisa Alegre, todas no extremo Norte do Estado, a Copasa já realiza racionamento de água. A companhia informou, por nota, que o rodízio acontece “como medida emergencial” e que orienta moradores “como forma de conscientizá-los nos períodos de estiagem”.

Doutora em Ciências Florestais e professora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), Maria das Dores Magalhães Veloso afirma que a forma irresponsável como as populações consomem água é o principal problema.

Ela explica que, a cada dia, os lençóis freáticos se tornam mais profundos e não são desenvolvidas ações específicas para reabastecê-los. Assim, em regiões de clima semiárido, como o Jequitinhonha e o Norte mineiro, os impactos são potencializados.

“Há 20 anos, você perfurava um poço de 15 metros e encontrava água. Hoje, é possível que em 80 metros de profundidade já não haja o recurso”, observa a professora. 

Outro desafio, aponta a especialista, é impermeabilização do solo que se torna maior à medida que as áreas urbanas se expandem para territórios que eram preservados. “Não há grandes variações na quantidade de chuvas. Porém, ela é carreada para córregos, chega aos rios e vai embora. Ou seja, tem água, mas ela não tem tempo de chegar ao lençol”, conclui. 

A Defesa Civil Estadual foi procurada, mas não se posicionou até o fechamento desta edição.