Quadrilhas especializadas de outros estados ou até mesmo de países vizinhos têm agido em shows na capital para tomar celulares das pessoas. A autuação dos bandidos em festas com grandes aglomerações tem sido cada vez mais frequente. Mulheres jovens são as principais vítimas dos ladrões. Por dia, BH tem uma média de 55 furtos de telefones.

Há registros desses grupos criminosos em março, durante o Carnaval, em julho, na Parada LGBT, e no início deste mês, em evento na Praça da Estação, no hipercentro, onde se apresentou a cantora Marília Mendonça. 

No último fim de semana, durante apresentação do sertanejo Gusttavo Lima, que reuniu cerca de 60 mil pessoas no Mineirão, na Pampulha, um bando da Bahia foi preso em flagrante dentro do estádio. Com eles, a polícia encontrou 17 aparelhos. 

Os assaltantes esbarravam em quem estava se divertindo e, em questão de segundos, realizavam o assalto. 
A gerente do setor de oncologia da Santa Casa de BH, Lorena Lima, de 29 anos, foi uma das vítimas. Ela saiu do camarote para ir ao banheiro e, no caminho, teve o celular furtado. O telefone custava R$ 3,7 mil e não foi recuperado. 

“Perdi todos os meus contatos, além de documentos importantes de trabalho. Tentei fazer o boletim de ocorrência pela internet, mas descobri que não seria possível. É frustrante saber que não temos segurança em lugar nenhum”, reclama. 

A Polícia Civil diz que o registro de furto só pode ser feito presencialmente. A delegacia virtual só recebe comunicados de perdas de documentos, acidentes sem vítima, desaparecimento ou localização de pessoas e danos simples.

Aglomeração 

Para especialistas, a aglomeração de pessoas sempre foi atrativo para os bandidos. E agora está atraindo quadrilhas que circulam pelo país à procura de oportunidades de lucros elevados.

Ex-secretário adjunto de Segurança Pública do Estado, ex-coordenador do Instituto Minas pela Paz e, atualmente, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Segurança Pública da PUC Minas, o sociólogo Luiz Flávio Sapori destaca que os smartphones são ítens de grande valor comercial. 

“Não é apenas um produto caro, mas para o qual também há inúmeros receptadores. Os celulares já têm destino certo antes mesmo de serem roubados. O crime vai aonde as oportunidades se apresentam e, hoje, há um nível de organização maior do que podemos supor”, afirma. 

Em nota, a PM informou que atua nesses eventos de variadas formas. A corporação diz realizar operações ostensivas e contar com o apoio de “inteligência policial” para identificar os criminosos. “A título de exemplo, nos últimos shows realizados em Belo Horizonte, houve importantes prisões de quadrilhas de furto a celulares e de agentes contumazes na prática desse crime”.

Mulheres jovens são alvo preferido dos bandidos

Investigações da Polícia Civil confirmam que uma série de quadrilhas especializadas em pequenos furtos está atuando em BH, segundo o delegado Gustavo Barletta, do Departamento Estadual de Investigações de Crimes contra o Patrimônio (Depatri).

O policial destaca que mandados de prisão devem ser emitidos em breve para suspeitos que estejam na capital, mas vieram do Distrito Federal, de São Paulo e do Rio de Janeiro. “São células criminosas já identificadas que estão furtando quantidades consideráveis de celulares”, revela o delegado. 

Palavra do Especialista

“Grandes aglomerações sempre registram incidência maior de furto. Isso também acontece em outros países. Geralmente, a atenção do público diminui por causa da bebida e da conexão com o espetáculo. Isso sem falar que esses aparelhos são usados o tempo inteiro para fotos, filmagens e postagens. Mas é claro que celulares demandam receptadores que já existem previamente. Então, uma mudança na estratégia de investigação pode contribuir.”

Eduardo Milhomens
Advogado e membro do Instituto de Ciências Penais

Barletta explica que as mulheres de 18 a 25 anos são, na maioria dos casos, alvos preferenciais dos bandidos. O delegado ressalta que, se estiverem sob efeito de álcool, as vítimas tornam-se ainda mais visadas. 

O uso da tecnologia a favor do crime também é um dos desafios para os investigadores, explica Barletta. “Já temos conhecimento de softwares utilizados por essas quadrilhas para driblar o bloqueio dos aparelhos e zerar o sistema deles para que possam ser revendidos”, diz. 

Os valores de revenda, porém, são totalmente incompatíveis com os preços de mercado. “Aparelhos que custam R$ 7 mil são repassados por R$ 1.500. O lucro, portanto, fica com os receptadores, que são nosso foco nas investigações. Esse grupo inclui, principalmente, shoppings populares e lojas menores de bairro”, explica.

Autoproteção

Professor de Direito Penal das Faculdades Promove e especialista em Gestão de Segurança Pública, José Roberto Vieira Lima afirma que a mudança de postura das pessoas e um cuidado maior com o próprio celular pode reduzir drasticamente a chance do furto acontecer.

“O Estado, infelizmente, não pode colocar um policial ao lado de cada cidadão. E o agravante é termos pequenos objetos de altíssimo valor. Algo a se avaliar é a possibilidade de deixar o celular em casa nos dias de grandes eventos”, opina.

Furtos de celulares