Sem obras de infraestrutura para evitar inundações, as medidas paliativas não funcionaram nas tempestades que atingiram a cidade nos últimos dois dias. Anunciados em outubro do ano passado como aposta para prevenir os prejuízos, os “olheiros” da Defesa Civil municipal (Comdec) – 16 agentes que deveriam monitorar visualmente nove pontos críticos e evitar que motoristas entrem em áreas alagáveis – não estiveram nas ruas nos momentos de precipitação.

A ausência deles na quarta-feira foi justificada pela rapidez com que a tempestade se formou, pegando todos de surpresa. Embora o radar meteorológico instalado em Mateus Leme, na Grande BH, tenha emitido sinal alertando sobre a chegada do temporal, não houve tempo hábil para deslocamento dos olheiros, informou a nota da Comdec.
 
O trabalho deles também foi dispensado ontem. Segundo a Defesa Civil, não houve necessidade de atuação nos pontos previstos para serem acompanhados de perto. Mas em alguns destes locais críticos houve carros arrastados de novo.
 
À mercê do tempo
 
Resultado da falta de planejamento a longo prazo e da ineficácia das ações preventivas, mais uma vez a população belo-horizontina ficou à mercê de uma forte chuva. No balanço dos dois dias de precipitação, o número de ocorrências relacionadas a alagamentos chegou 96, conforme a Comdec. O grande número de ocorrências evidencia a necessidade de obras de grande porte para amenizar o impacto das tempestades na cidade.
 
O prefeito Marcio Lacerda já havia anunciado, em 2011, que precisaria de pelo menos R$ 5 bilhões para as intervenções capazes de evitar inundações. Apenas R$ 1,5 bilhão estava disponível para ser investido em 34 obras, que deveriam ser concluídas até o último mês.
 
A Secretaria de Obras informou, em nota, algumas ações que estão previstas. O córrego dos Pintos (avenida Francisco Sá) terá obras de microdrenagem e construção de um canal paralelo ao já existente. Também será feita a implantação da bacia de detenção de cheias no bairro Calafate, incluindo um canal lateral na avenida Tereza Cristina, e será construído um reservatório no bairro das Indústrias, reduzindo o risco de inundações na calha do ribeirão Arrudas. Mas a previsão é que as obras só sejam concluídas em 2016.
 
Os estragos da chuva são consequência do desenvolvimento da cidade sem a preocupação com a drenagem urbana. “Na construção da cidade, no início do século passado, todos os córregos que existiam na avenida do Contorno foram fechados. Até hoje, sofremos o efeito disso”, afirma Reginaldo Magalhães de Almeida, professor de planejamento urbano da Universidade Fumec.
 
E o processo continuou. Dos 700 km de cursos d’água existentes em BH, apenas 28% permanecem em leito natural, calcula Sérgio Myssior, membro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-MG).