A Covid-19 avança pelo interior de Minas. A cada dez pacientes testados positivos, sete são moradores de municípios mais distantes da capital. O cenário é o oposto do que se viu nos primeiros meses da pandemia, quando 70% dos casos estavam concentrados na região Central. E também serve como um sinal de alerta. Com as festas de fim de ano, especialistas temem que as viagens para visitar familiares em outras localidades potencializem o risco de infecção e a circulação do novo coronavírus em todo o território.

Ontem, o secretário de Estado de Saúde (SES), Carlos Eduardo Amaral, reforçou que, nas últimas semanas, é registrado um aumento progressivo de doentes em cidades com menos de 30 mil habitantes. 

O crescimento reflete, inclusive, na demanda por internações em UTIs. Minas tem mais pacientes internados nos hospitais públicos por causa da Covid-19 em dezembro do que em julho, quando houve o pico da pandemia. Na última segunda-feira, 2.985 pessoas estavam em leitos exclusivos para a doença na rede do SUS, sendo 1.092 na terapia intensiva.

O crescimento do número de doentes tem forçado transferências de pacientes entre macrorregiões, por causa do estrangulamento no sistema de saúde. “Há regiões que ficaram com um número tão grande de casos que precisamos referenciar pacientes para outras”, diz o secretário.
Vale lembrar que, desde novembro, Governador Valadares, no Leste do Estado, está com 100% da capacidade de internações na UTI na rede particular. Ontem, a ocupação de vagas em hospitais públicos da cidade chegou a 91,4%. Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, a situação também é crítica: 98,11% dos leitos de UTI privados estão ocupados, e no SUS, a taxa é de 84,77%, segundo a prefeitura.

No Estado, 149.853 diagnósticos positivos de Covid foram de moradores da região central. Os demais, 350.817, de habitantes de outras regiões mineiras. 

Presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estevão Urbano destaca que, geralmente, uma pandemia começa na metrópole e segue para o interior. “As pessoas vão para esses municípios para trabalhar e visitar a família e acabam levando o vírus. Não existe uma barreira que evite o vírus em algum local, por mais afastado que seja. A partir do momento que se tem movimento de pessoas, o vírus vai atrás”, explica o médico, que também atua no Hospital Madre Teresa, em BH. 

“Na capital, começamos a nos infectar mais cedo e o sistema de saúde foi estruturado. Talvez a população e o poder público no interior tenham se preocupado menos naquela ocasião (início da pandemia) porque se falava, até então, de aglomeração apenas em BH e região metropolitana”, diz o médico Leandro Curi.

O infectologista também acredita que, nos primeiros meses, as pessoas tinham convicção de que a doença estava restrita à metrópole. “Mas é fato que ela iria se interiorizar”.

Leandro Curi destaca que, em dezembro, o nível de transmissão de Covid-19 é o mais crítico registrado desde o início da pandemia. “E pode piorar. Nos próximos dias, muita gente vai viajar para passar o Natal com familiares no interior. Com este fim de ano será um problema mais sério ainda”.