De cada dez pedidos de socorro para resgatar desaparecidos, atendidos pelo Corpo de Bombeiros, nove são de pessoas que se perderam em trilhas e regiões de cachoeiras. De janeiro a novembro de 2018, a corporação participou de 526 buscas a turistas. O número de chamados é o maior dos últimos cinco anos e cresceu 43% na comparação com os 12 meses de 2017.

As férias e a alta nas temperaturas prevista até o fim desta semana, quando os termômetros podem bater a marca dos 33°C na Grande BH, reforçam o alerta. Além dos sumiços, a falta de cuidados básicos pode transformar a diversão em desespero, resultando em acidentes e até mortes.

Segundo a corporação, muitas vítimas ignoram riscos, cometendo abusos. Dentre os principais motivos para o desaparecimento estão a inexperiência com rotas em áreas verdes, ausência de guia e falta de rede no celular, deixando o GPS inoperante. Mudanças bruscas no clima também podem comprometer o passeio.

“A maioria das vítimas desse tipo de incidente não tem experiência” (Glauber Fraga, soldado dos Bombeiros)

Onde

Trilhas em parques como nas serras do Cipó (região metropolitana), do Caparaó (Central e Zona da Mata) e da Mantiqueira (Sul de Minas) são os destinos em que o Corpo de Bombeiros mais atua para localizar banhistas e esportistas. Matas que dão acesso a cachoeiras também registram muitas ocorrências.

Quem passou pela desagradável experiência fala sobre o aprendizado após o susto. É o caso da belo-horizontina Miriã Souza, de 23 anos. Em 2017, ela e um amigo foram até a Cachoeira do Índio, em Rio Acima, na região metropolitana. Mesmo sem conhecer o trajeto, optaram por caminhar à noite e se perderam. 

“Andamos mais de três horas e, como não tinha o que fazer, forramos o chão com uma toalha e paramos para descansar em um ponto. Quando amanheceu, a gente voltou parte do caminho e conseguiu chegar”, lembra. “Hoje, faço trilha com frequência. Mas sempre estudo a área com meus amigos antes de irmos”.

Nem mesmo atletas experientes estão imunes a imprevistos, garantem os Bombeiros. Em abril do ano passado, o esportista francês Eric Weterlin, de 54 anos, desapareceu na Serra da Mantiqueira, em Itajubá, na divisa com São Paulo, durante expedição pela região. Foram 18 dias de buscas até que os militares encontraram o corpo dele em uma mata fechada.

Mortos após trombas d'água

Nesta época do ano, o alerta é reforçado pela ocorrência de temporais, que podem surpreender as pessoas. As precipitações, além de dificultar a caminhada, aumentam o nível da água nas cachoeiras rapidamente, dando mais força à correnteza. 

Entre 22 de dezembro de 2018 e o dia 2 deste mês, o Corpo de Bombeiros atendeu a quatro chamados de tromba d’água. O saldo foi de sete mortes e 20 pessoas perdidas em trilhas. Para evitar tragédias, os conselhos são os mesmos: conhecer a área e contar sempre com a ajuda de um guia, além de se informar sobre a previsão do tempo. 

“A maioria das vítimas desse tipo de incidente não tem experiência. Elas também buscam lugares não tão apropriados. É necessário, sempre, procurar locais demarcados e sinalizados”, alerta o soldado dos Bombeiros Glauber Fraga.

Caso a pessoa constate que está perdida, o ideal é acionar a corporação indicando um ponto de referência e aguardar, evitando novos deslocamentos. “Ter um celular para pedir socorro é importante. Mas a pessoa tem que ter a consciência de que ele pode não funcionar”, acrescenta o militar. Por isso, outro conselho fundamental é avisar outras pessoas sobre onde se está indo. As buscas são realizadas com a ajuda de drones e helicópteros.

Renata Apoloni, chefe substituta do Parque Nacional da Serra do Cipó, um dos roteiros mais procurados, diz que cartilhas educativas são distribuídas aos turistas. Ela também reforça outros cuidados. 

“O indicado é usar uma roupa leve, tênis e meia mais alta ou calça para fazer a trilha. Manter a atenção com animais peçonhentos e sempre ter um kit de primeiros socorros, água e alimentos”.