Numa guerra declarada há quase dois anos, taxistas e motoristas do Uber parecem incansáveis na luta por espaço nas ruas de Belo Horizonte. De um lado, os permissionários da BHTrans reivindicam os direitos da categoria e o fim do aplicativo. Do outro, condutores que viram na plataforma digital a oportunidade de complemento de renda e até mesmo de sustento da família. No meio desse confronto, alertam especialistas, quem acaba pagando a conta é o usuário.

Desempregado há três meses, Humberto Santos, de 37 anos, viu no Uber uma oportunidade de ganhar dinheiro. Os rendimentos, ele garante, superam R$ 1,7 mil semanais. Por sua vez, o taxista Sinésio Jardim, de 57, atuando no serviço há três décadas, conta ter visto o ordenado despencar pela metade após a entrada do aplicativo na capital.

O permissionário da prefeitura diz trabalhar de 5h às 17h para sustentar a esposa e o filho de 20 anos. Com inúmeras despesas com a manutenção do carro e as taxas pagas para atuar no transporte de passageiros na cidade, Sinésio começou a sentir as perdas financeiras há cerca de seis meses. A redução de viagens em consequência, segundo ele, da atuação do Uber e a crise econômica seriam as causas para a baixa nos vencimentos. “Ganhava R$ 4 mil. Agora, consigo tirar R$ 2 mil trabalhando o dia inteiro”.

Sinésio clama por justiça. “O Uber é ilegal. Acho errado os motoristas rodarem sem passarem por uma avaliação da BHTrans”, afirma.

Segunda chance

Enquanto os taxistas pedem o fim da plataforma digital na capital, os condutores do aplicativo se defendem. Para eles, foi graças ao Uber que tiveram uma nova oportunidade de trabalho. Humberto Santos diz que se cadastrou no aplicativo há pouco mais de um mês, depois de comprar o carro do irmão, e também tem jornada de 12 horas diárias.

Com os descontos de gasolina e manutenção do veículo, já conseguiu ganhar cerca de R$ 4,8 mil nesse período, e planeja o futuro. “Quero comprar um veículo, crescer. Sempre fui disciplinado na minha profissão e quero continuar assim como motorista”, relata.

Taxista

RENDIMENTO – Sinésio diz que conseguia tirar R$ 4 mil por mês, mas os vencimentos caíram

Direitos

Enquanto cada categoria defende o ganha-pão dos profissionais, Danielle Fernandes, professora do Departamento de Sociologia da UFMG, afirma que esse conflito por espaço dentro da sociedade é natural. O que foge à regra, porém, são as brigas entre eles, que estão se tornando mais comuns. “Ambos têm legitimidade para rodar. Imagine se toda organização que luta por direitos resolvesse se estruturar para bater? Nesse sentido, os taxistas estão errados nas agressões”, opina.

Os conflitos pelo mercado geram, em algumas situações, o descompromisso com o usuário dos serviços de transporte. “O passageiro é muito afetado porque a qualidade do serviço prestado é deixada de lado”, enfatiza Wilson Santos, especialista em psicologia organizacional e comportamental. Ele observa que ganha mais espaço o profissional que oferecer o melhor serviço. “Nesse aspecto, o Uber tem as tarifas mais atrativas”.

Para sobressair no mercado, alternativa é investir no diferencial para o passageiro
 

Taxistas há 18 anos, Rogério Mendes, de 37, faz questão de oferecer serviços diferenciados visando o conforto do usuário. Atendimento personalizado, água no carro, máquina de cartões de crédito e débito, são algumas das estratégias dele para fisgar o passageiro. Os itens não são exigências da BHTrans, empresa que gerencia os permissionários na capital mineira. “Mas aprendi desde cedo que para sobressair no mercado é preciso ser diferente”, comenta.

Mesmo assim, Rogério relata que nos últimos meses teve uma queda de 80% no faturamento. Antes, ele tirava cerca de R$ 300 por dia numa jornada de 12 horas. “O jeito foi fazer corridas em outras regiões e até serviços de ida e volta da escola”, conta.

Premissa para trabalhar no Uber, a cordialidade está em primeiro lugar no serviço que Leonardo Padilha, de 38 anos, presta como motorista do aplicativo. Essa é a aposta dele para conquistar e manter os clientes. “Recebemos treinamento on-line para aprender as boas práticas no atendimento ao cliente. Isso tem dado resultado”.

Decisão judicial

Uma liminar concedida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) garante ao motorista do Uber o direto de circular em BH. Mas, para que cada condutor tenha o direito assegurado, é preciso ajuizar uma ação individual. A liminar precisa estar no carro para que, flagrado em blitze, o parceiro do aplicativo não seja autuado pelas autoridades.

Os taxistas alegam, porém, que após a lei municipal 10.900, de 2016, o Uber não poderia atuar na capital. Segundo o texto, os aplicativos voltados para o transporte remunerado de passageiros só poderão operar na cidade se usarem mão de obra de motoristas autorizados pelo governo municipal.

O Uber reitera que é um serviço de transporte individual privado e legalmente fundamentando na Constituição Federal. Para Leonardo Borcoletto, presidente da Sociedade dos Usuários de Tecnologia e Telecomunicações de Minas Gerais (Sucesu-MG), que representa alguns motoristas do Uber em Belo Horizonte, a expectativa é a de que a Justiça julgue os processos envolvendo o aplicativo em até seis meses.

Procurado por inúmeras vezes pela reportagem do Hoje em Dia, em contato telefônico e por e-mail, o Sindicato dos Taxistas (Sincavir) não quis se pronunciar sobre o assunto.