Medidas para mitigar os danos ambientais ao longo da bacia do rio Doce, provocados pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana, podem se estender por dez anos. A avaliação é do engenheiro florestal Enio Fonseca, superintendente de Gestão Ambiental da Cemig. Segundo ele, a estatal pode contribuir para a redução dos efeitos da destruição causada pelos rejeitos da mineração. Apenas o diagnóstico dos impactos deve durar um ano.

Fonseca afirma que a Cemig tem condições de desenvolver ações que ajudem a natureza a se recompor mais rapidamente, disponibilizando técnicas de restauração ambiental e de monitoramento da qualidade da água. “A Cemig tem enorme expertise e conhecimento técnico e científico e coloca isso à disposição do poder público, da sociedade e da Samarco”, diz.

Essa expertise é resultado de mais de 20 anos de trabalho com instituições de pesquisa nacionais e internacionais, segundo o especialista em engenharia ambiental. “Nessa hora, a tecnologia é absolutamente necessária. Nossas usinas contam com programas de monitoramento que vão fornecer informações preciosas sobre o manejo da água, do peixe e da floresta”, destaca o superintendente da Cemig.

A estatal faz parte da força-tarefa criada por decreto, no sábado passado, pelo governado de Minas. Também participam órgãos estaduais e prefeituras. O grupo vai centralizar o levantamento de danos e propor medidas restauradoras na bacia do rio Doce.

Processo natural

Fonseca destaca que “os afluentes que estão vivos vão continuar fornecendo água, fitoplânctos (microalgas), zooplânctons (microcrustáceos) e peixes” para a calha do Rio Doce. “O reflorestamento de matas ciliares e os peixamentos (soltura de filhotes nos rios) ajudam a natureza a recuperar mais rapidamente os cursos d’água afetados pela lama”, explica.

Ele reitera que a Cemig conta com tecnologia para implantar programas de reflorestamento de mata ciliar e proteção de nascentes, com viveiros de sementes e mudas nativas. Também possui laboratórios para a produção de alevinos, usados no repovoamento de reservatórios e rios onde há empreendimentos da estatal.

Entre os programas disponíveis, Fonseca cita o Peixe Vivo, referência internacional no conhecimento da ictiofauna, e o Sistema de Informação de Qualidade da Água (Siságua), uma base de dados gerados a partir das coletas feitas no monitoramento dos reservatórios e rios.

Mortandade

O rio Doce tem 77 espécies de peixes, sendo 48% endêmicas (só ocorrem na bacia). Houve mortandade em massa na região do derramamento da lama, segundo o professor de pós-graduação em biologia dos vertebrados da PUC Minas, Fábio Pereira Arantes. Ele faz estudos na região.

O rastro de destruição e morte causado pelo despejo de rejeitos, com volume nove vezes maior que o de água da Lagoa da Pampulha, dificulta muito a recuperação dos pequenos afluentes que foram “aterrados” por sedimentos e lama, diz o pesquisador Ricardo Coelho, presidente da Icatu Meio Ambiente Ltda.

Ele afirma que há espécies de peixes que podem ser extintas a médio prazo, em dois a cinco anos.