Um dispositivo que pode tornar o teste RT-PCR, para diagnóstico da Covid-19, mais barato e acessível está sendo produzido em Minas. Trata-se de um swab 3D, aquela haste especial usada para a coleta de material dentro do nariz para o exame molecular. A expectativa é que o instrumento venha a custar R$ 0,95 a unidade, bem mais em conta do que a média de R$ 2 cobrada pelo swab importado.

Coordenador da pesquisa que levou ao swab 3D, o pesquisador do Instituto René Rachou, braço da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Estado, Rubens do Monte Neto conta que o desafio começou a partir de uma demanda da Secretaria de Estado de Saúde (SES), que tentava comprar, em julho, os chamados swabs rayon, que são importados, mas não havia disponibilidade deles no mercado.

Rubens Neto revela que, como há uma plataforma 3D na Fiocruz em Minas, a SES procurou sua equipe e propôs que desenvolvessem o dispositivo, já feito em 3D por três empresas dos Estados Unidos, que não disponibilizam a tecnologia.

“Entrei em contato com a empresa AstroScience, de Uberaba, no Triângulo Mineiro, também de 3D, e fizemos o modelo. É de resina flexível, resistente o suficiente, tem biocompatibilidade e possibilidade de ser esterilizado”, explica o cientista, que é doutor em Farmacologia e pesquisador em Saúde Pública.

A etapa seguinte foi a validação funcional do swab 3D, saber se realmente é capaz de coletar a quantidade de material suficiente para o teste molecular. Em pacientes assintomáticos, houve a comprovação de que as hastes em 3D funcionam de forma muito semelhante aos swabs de rayon, afirma Rubens Neto.

Testar em hospitais

A próxima fase será testar em humanos com suspeita de Covid-19, nos hospitais da Rede Fhemig, planejada em parceria com o médico Flávio Capanema, do Hospital de Pronto Socorro João XXIII. “Estamos recrutando as pessoas. Acessar esses pacientes é um processo mais burocrático e a SES será nossa parceira nessa iniciativa”, diz ainda.

“Já temos uma evidencia muito boa de que vai funcionar, por ele coletar uma quantidade de amostra suficiente. Ele passa na mucosa do nariz e traz consigo o muco, células, onde está o vírus. É comparável com o que o swab convencional faz”, certifica.

Além dessa fase dos testes em pessoas com suspeita de terem o novo coronavírus, a produção do swab em Minas com acesso facilitado à população depende da chegada de uma nova impressora 3D à Fiocruz. Rubens do Monte explica que ele coordena uma plataforma de impressão 3D que usa tecnologia chamada deposição de plástico. No entanto, a tecnologia usada para a impressão em resina, que é um líquido, é outra, que já teria sido encomendada pela Fiocruz. 

Enquanto isso, o pesquisador conta que usa uma impressora de resina que tem em casa, pequena, capaz de produzir 250 hastes em sete horas. “A resina custa em torno de R$ 1,5 mil o litro. Se fizermos em baixa escala, sairá caro. Mas, mesmo com a resina cara, com a nova impressora poderemos produzir 1 mil hastes a cada sete horas e o custo da unidade seria em torno de R$ 0,95”, frisa. 

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) informa que deu início ao processo de compra da resina para impressão do swab. “A gente depende muito do esforço político, da compra desse material, mas, se investirmos em nacionalização dos insumos, o swab 3D será ainda maia acessível. As resinas são nacionais, mas insumos são importados”, pondera Rubens Neto.

Além disso:

Até o momento, aponta a Secretaria de Estado de Saúde (SES) de Minas Gerais, já foram realizados 131.915 exames RT-PCR, para o diagnóstico da Covid-19, pela Rede Pública do Estado. Desses, 34.468 apresentaram resultados detectáveis para o novo coronavírus. A doença pode ser identificada também por testes sorológicos, que revelam a presença de anticorpos no sangue.

A SES-MG confirma que durante o período em que houve dificuldade para adquirir o swab, a Coordenação Estadual de Laboratórios e Pesquisa em Vigilância (Celp) entrou em contato com pesquisadores da Fiocruz, em busca da parceria no desenvolvimento de swab 3D.Atualmente, afirma a secretaria, a demanda por swab rayon no Estado está normalizada.

A ideia, com a produção do swab 3D, observa o pesquisador Rubens do Monte Neto, da Fiocruz, é dar suporte ao Sistema Único de Saúde (SUS) e aumentar escala de testes.