Todos os 275 mil habitantes da cidade afetados e prejuízos que ultrapassam R$ 153 milhões. Essa soma foi apresentada pela prefeita de Governador Valadares, Elisa Costa (PT), na tarde desta sexta-feira (5), durante balanço dos reflexos, no município, do maior acidente ambiental do país, que completa três meses. No Estado, o valor chega a R$ 1,2 bilhão.
 
Governador Valadares é a maior das 35 cidades mineiras margeadas pelo rio Doce, que foi atingido pelos rejeitos da barragem da Samarco que se rompeu em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015 - outros três municípios estão no Espírito Santo. Esses valores, no entanto, avisa a prefeita, são estimados e serão revistos ao longo do tempo.

Segundo Elisa Costa, grande parte da soma dos R$ 153 milhões reclamados por Valadares são referentes a prejuízos públicos (R$ 134.351), a maioria relacionado ao abastecimento de água, adaptação da alimentação escolar, assistência médica e despesas que a prefeitura teve para socorrer a população que ficou sem água tratada nas torneiras por uma semana.

O restante foi reclamado pelo setor privado, em especial das áreas de pecuária, agricultura e serviços. O relatório foi construído colhendo demandas atuais dos diversos setores e entregue a presidência da Samarco, Assembleia Legislativa, Ministério Público e governos estadual e federal, nesta quinta-feira (4).

O relatório não relaciona indenizações, compensações exigidas pelos municípios e nem as ações executadas pela Samarco para amenizar os impactos do acidente que, além de prejuízos humanos, provocou a mortandade de 11 toneladas de peixes, ameaçou de extinção várias espécies da fauna e flora no Vale do Rio Doce e espalhou pânico na população, que ficou sem água.

Na lista de compensações exigidas por Valadares está a construção de uma adutora alternativa no rio Suassui Grande - o percurso é de 22 kms e está em estudo porque prevê desapropriações. Consta ainda a modernização do laboratório do Saae e a contratação de cem agentes de endemias para combater, em especial a dengue.

"É bom que a população saiba que a prefeitura de Valadares não recebeu nenhum recurso em espécie. Que ainda não entrou dinheiro da Samarco nos cofres municipais. Todas as demandas atendidas pela mineradora até agora foram providenciadas pela própria empresa que contratou diretamente pessoas e serviços", avisa Elisa Costa. A ONU enquadrou o desastre como um evento que viola os direitos humanos.

Saae

O diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), Omir Quintino, voltou a afirmar nesta sexta-feira que a água tratada distribuída à população de Valadares está potável e própria para o consumo, obedecendo a padrões exigidos pela OMS.

No entanto, por causa da desconfiança da população que não está bebendo da água e ainda restringindo o seu uso para banho e limpeza, o consumo caiu 13% em novembro, o que representa perda de 21% da receita. Esse prejuízo integra a soma de R$ 153 milhões.

"A água tratada do Saae está 100% dentro dos padrões de potabilidade e pode ser consumida. Isso está atestado por vários laudos e laboratórios diferentes, todos credenciados pelo Inmetro. É a água mais potável e própria para o consumo nesse momento em Valadares", garantiu Omir.

Relatório

O relatório geral dos prejuízos provocados pela lama em Minas Gerais foi divulgado na quinta-feira (4) pela força-tarefa montada pelo governo do Estado para apurar os reflexos da tragédia. O valor será cobrado da Samarco, que pertence a Vale e BHP-Billiton. No total de R$ 1,2 bilhão reclamados, não estão incluídos danos ambientais e recursos que serão utilizados para pagamento de indenizações.

Poços

Equipes do Saae começaram esta semana um trabalho de visitação para identificação dos poços artesianos existentes na cidade. O objetivo é garantir a instalação de medidores de consumo, a hidrometração, conforme determina a legislação.

De acordo com o diretor do Saae, Omir Quintino, o objetivo é conhecer o volume real de água consumida pelas famílias e garantir, assim, informações para cálculo da taxa de esgoto, destinada à manutenção das redes de coleta. É que, com o poço, a pessoa não consome água do Saae, mas utiliza a rede de esgoto, cuja taxa é calculada pelo consumo de água.

Nos poços que ainda não possuem o medidor, as equipes do Saae estão notificando os proprietários para que a instalação seja feita em até 15 dias. O diretor explica que, com o rompimento da barragem em Mariana, muitas famílias buscaram como alternativa água em poços artesianos, estimulando, inclusive, a perfuração em novos pontos da cidade.

Mas passado o período crítico e normalizado o abastecimento, o uso dos poços artesianos por famílias em Valadares ainda é realidade. E o consumo de água de fonte própria, consequentemente, tem aumentado também o volume descartado nos ramais de esgoto da cidade. "A consequência deste aumento no volume de esgoto é a necessidade de maior manutenção em toda a estrutura coletora", justifica o diretor.