Pelo menos três acidentes são registrados por dia, em média, em decorrência de motoristas que caem no sono ao volante, em rodovias federais que cortam Minas Gerais, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). No entanto, os números podem ser muito maiores, devido à dificuldade de coletar a informações à respeito após as batidas.

Somente em 2012, dos 26,4 mil acidentes registrados, 1.167 (4,5%) foram comprovadamente associados ao sono do motorista. Já em 2013, entre janeiro e outubro, foram 860 registros de um total de 21,3 mil batidas.

“Esses dados não condizem com a realidade. É difícil levantar essa informação, pois muitas vítimas acabam morrendo ou já foram resgatadas quando chegamos”, afirma o chefe da Comunicação da PRF, inspetor Aristides Júnior.

O autônomo Lucas Vilela, de 22 anos, foi uma das vítimas do sono em um acidente que sofreu no início de dezembro. Ele trafegava pela MG-030, em Nova Lima, na Grande BH, quando apagou. “Não me lembro de nada. Voltava para casa após quase 24 horas acordado. Machuquei muito, mas estou vivo”, disse. Ele afirma que voltará a dirigir à noite, mas agora, só descansado.

Apneia

Segundo o chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Junior, a sonolência e doenças relacionadas, como a síndrome da apneia obstrutiva do sono, são a terceira maior causa de acidentes de trânsito no país, perdendo apenas para o excesso de velocidade (imprudência) e o uso de álcool ou drogas na direção.

Além disso, estudos epidemiológicos internacionais apontam que um terço dos acidentes fatais são causados por motoristas sonolentos.

Dirceu diz que o recomendado é a pessoa dormir entre sete horas e 40 minutos e oito horas por dia. No entanto, isso não é seguido por muitos motoristas, principalmente caminhoneiros. “Vemos muitos desses profissionais repousando por apenas duas ou três horas, em boleias desconfortáveis. Isso aumenta a possibilidade de acidentes em pelo menos quatro vezes”, diz o médico.

Crepúsculo

O especialista alerta que, a partir de 16 horas acordado, os primeiros sinais de cansaço aparecem, principalmente à noite. “Temos um relógio biológico que nos deixa alerta de dia. Na ausência de luz, o corpo aumenta a produção de melatonina, substância que induz ao sono. Somada a fadiga das atividades diárias, não há nada que vença o sono”, alerta Dirceu Rodrigues.

Com o sono, algumas funções essenciais ao dirigir ficam comprometidas, como atenção, coordenação motora e visão. “O tempo de resposta do corpo passa de 0,75 segundo para 1,70 segundo. Dependendo da velocidade do veículo, a diferença é enorme”, afirma.

Energético, café e refrigerante não enganam o organismo

Ao contrário do que diz a crendice popular, energéticos, café e refrigerantes a base de cola não impedem a pessoa de cair no sono. Segundo o chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional e diretor de Comunicação da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Rodrigues Alves Junior, nada impede a produção de melatonina no corpo na ausência de luz.

“Há substâncias, como o famoso rebite, um remédio para apetite, que estimula o corpo. No entanto é algo extremamente perigoso, pois a pessoa apenas não sente o sono chegar, causando um apagão súbito”, alerta o médico.

Irrecuperável

Quem perde uma noite de sono nunca mais conseguirá recuperar os seus benefícios, diz o especialista. “Quando dormimos, há uma reestruturação do organismo, incluindo o sistema imunológico. O repouso é como um antioxidante para o corpo. Se passarmos dois dias acordados, por mais que descansarmos posteriormente, os estragos já foram feitos”, informa Dirceu Rodrigues.

No entanto, cada organismo é de uma forma. Com o passar dos anos, o corpo produz menos melatonina e é por isso que pessoas mais velhas se sentem satisfeitas com menos horas de sono do que as jovens.

Parar na hora

Segundo o chefe da Comunicação da PRF, inspetor Aristides Junior, a pessoa que apresenta sinais de sono deve parar em algum posto ou local seguro, imediatamente. Não se deve estacionar no acostamento para dormir, pois além de infração de trânsito isso configura risco de acidentes.