O transporte clandestino avança pelas ruas de Belo Horizonte de forma cada vez mais articulada. Sem o menor constrangimento, os perueiros estacionam em local proibido e até mesmo em frente a pontos de ônibus à espera de passageiros. A atividade conta, inclusive, com o apoio de uma espécie de agenciador: pessoas que abordam quem está nos abrigos dos coletivos para oferecer a viagem.

Nem mesmo o cerco da fiscalização tem sido suficiente para barrar os infratores. Levantamento da Polícia Militar e Guarda Municipal confirma o crescimento dos flagrantes. De janeiro a setembro deste ano, as multas aplicadas a esses condutores mais que dobraram na capital. Foram 2.427 autuações nos nove primeiros meses de 2018, contra 1.144 no mesmo período de 2017.

A frota de clandestinos é formada, principalmente, por vans. Porém, carros particulares, como Chevrolet Meriva e Spin, também são encontrados. Em alguns casos, os automóveis permanecem parados na via por até uma hora aguardando a clientela. Os abusos acontecem com mais frequência na região central, como nas avenidas Olegário Maciel, Afonso Pena, Amazonas e Tereza Cristina, além das ruas Carijós, Guaranis, Tupinambás, Rio Grande do Sul e Guaicurus.

Dentro dos veículos, o motorista conta com um ajudante para cobrar as passagens e abrir as portas. Os destinos mais oferecidos são as cidades da Grande BH, como Ribeirão das Neves, Contagem e Betim. Para seduzir os viajantes, preços que variam de R$ 5 a R$ 8, além do intervalo menor, se comparado ao transporte público. “Chego mais rápido e vou sentada”, disse uma passageira.

Ela e os demais usuários, no entanto, têm ignorado inúmeros riscos ao embarcar. Pneus carecas, retrovisores quebrados e falta de cinto de segurança são alguns dos problemas flagrados pelo Hoje em Dia.

Perigo

Presidente da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), Dirceu Alves reforça o perigo. “Se cobra barato, é porque não tem conforto e segurança. É uma opção que favorece a ocorrência de acidentes com lesões graves ou até morte”. Para a entidade, as forças de segurança precisam investir em ações preventivas e punitivas.

O tenente Marco Antônio Said, do Batalhão de Trânsito da PM, também alerta sobre os riscos. Segundo ele, a legislação é um empecilho. “A lei não permite a apreensão. O que a gente faz é multar e reter o carro até que todos desembarquem”.

O motorista paga multa de R$ 130,16 e perde quatro pontos na carteira. “Porém, enquanto houver quem abra mão da própria segurança, em vez de utilizar o transporte legal que é inspecionado, o sistema não vai falir”, afirma Said.

Os acidentes de trânsito não são a única preocupação. Conforme o inspetor João Marinho, chefe do setor de Transportes da Guarda Municipal, pessoas com “extenso histórico criminal” já foram flagradas. “Já encontramos alguém dirigindo com tornozeleira eletrônica ou mandado de prisão em aberto”.

Para reduzir a atuação clandestina, a Guarda Municipal aposta em fiscalizações diárias. “Temos uma equipe de inteligência. A partir do momento que percebemos a movimentação, é feito o contato para que se faça a abordagem”, acrescenta Marinho.