Sem comida, água, energia elétrica e lugar para ficar. Esse é o retrato de grande parte dos circos de Minas, proibidos de se apresentar devido à pandemia do novo coronavírus. Os recursos para salvar os artistas do picadeiro já foram prometidos pelos órgãos públicos, mas a ajuda ainda não chegou da forma esperada.

"Eles estão isolados, sem poder fazer cadastro em posto de saúde nas cidades [por falta de endereço fixo] ou recorrer ao auxílio emergencial do governo federal", lamenta Sula Mavrudis, presidente da Rede de Apoio ao Circo, diretora da área no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversos de Minas Gerais e membro da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Minas Gerais.

Ela é autora de um levantamento que identificou, pelo menos, 65 circos do Estado que estão em situação de fome. "Podem ser mais, com certeza. Listamos apenas os que estão associados à Rede. Todos eles têm em comum a falta de ajuda das prefeituras, que cortam água e luz após o vencimento do prazo de uso provisório, quase que expulsando-os das cidades", explica.

Em boa parte, ressalta, são famílias inteiras que não têm para onde ir. "Ali estão todas as gerações de uma mesma família, povos nômades que mudam de cidade a cada semana, mas que, por causa da pandemia, tiveram que parar. Eles têm o direito, pela lei, de serem assistidos onde estiverem", observa Sula.

Sem auxílio emergencial

Quase todos os artistas tiveram o pedido de inclusão no plano de auxílio emergencial recusado, por não se enquadrarem nos critérios exigidos pelo programa. Outros não sabem manusear os aplicativos. O governo do Estado, segundo Sula, tentou ajudar enviando cestas básicas, mas elas não têm chegado a todos, devido, principalmente, à dificuldade de logística.

"De uma família de 18 pessoas, somente quatro conseguiram", lamenta Silvânia Soares da Silva, do circo Mundial, sobre os pedidos para o auxílio emergencial. Segundo ela, vários tiveram os pedidos negados ou continuam em análise. "Estamos sobrevivendo da doação de cestas básicas, além da venda de maçãs do amor e algodão doce, quando dá para sair", registra.

O circo está localizado num terreno cedido pela Prefeitura de BH, no bairro Milionários, onde se apresentaram pela última vez, em março. "Desmontamos a lona, deixando só a estrutura de ferro, as carretas e as moradias", explica Silvânia, frisando que o circo já está na quinta geração de sua família.

"O futuro é incerto. Já sei de muita gente que vai para casa, que vai parar com o circo. Também estou me sentindo desamparada, mas não posso desistir. É a única coisa que sei fazer", assinala a integrante do Mundial. 

Moisés, o Rei do Pedal, que está à frente do circo de mesmo nome, já teve que vender uma caminhonete de R$ 45 mil por R$ 27 mil para manter a estrutura. "Há dois meses que não ganho nada. Só estou gastando", detalha. Ele e sua trupe estão no terreno de um sítio em Contagem, no bairro Estâncias Imperiais. No local, também estão integrantes do Montenegro e de outros circos.  

"Se ficar mais tempo (parado), não sei se vou aguentar", avalia Moisés, que trabalha com diversos tipos de bicicletas em suas apresentações."Os governos deveriam olhar para nós. O circo é a diversão mais antiga do mundo e não pode acabar", ressalta.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese) enviou nota explicando que "está articulando com órgãos e entidades estaduais ações para atendimento integral de famílias de povos tradicionais em situação de vulnerabilidade".

A principal ação destacada pela Sedese é justamente a distribuição de cestas básicas, feita em parceria com a Defesa Civil, prestando atendimento a cinco mil famílias - além dos artistas de circo, estão quilombolas, indígenas, ciganos e vazanteiros.

"A Sedese busca também novas parcerias junto à iniciativa privada para atender a demanda dessas famílias que estão com dificuldades em acessar benefícios emergenciais que garantam sua segurança alimentar", conclui a nota.

Leônidas Oliveira, secretário de Cultura e Turismo do Estado, afirma que o primeiro desafio é levar assistência básica às comunidades tradicionais. "Os artistas de circo são pessoas que vivem do dinheiro que ganham no dia anterior e estão numa situação crítica", afirma.

Segundo ele, um primeiro movimento a ser feito, junto com a sociedade civil, é formar um grande grupo "para que possamos cuidar dessa emergência inicial, que é levar alimento e ajudar com recursos para pagar água e luz".

A ideia também é ajudar os artistas a ingressarem no plano de auxílio emergencial.