No início da terceira semana de buscas por desaparecidos em Brumadinho, as áreas devastadas pela lama às margens do rio Paraopeba começaram a atrair curiosos e até turistas. Com a reabertura do Museu Inhotim, sábado, centenas de visitantes têm passado pela cidade para ver as áreas afetadas pela catástrofe que deixou 165 mortos e 160 desaparecidos até o momento.

Apesar de manter as buscas diárias, há três dias o Corpo de Bombeiros não encontra vítimas do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro. Nesse domingo (10), foram identificadas oito vítimas. No fim de semana, 352 militares divididos em 35 equipes participaram das buscas, mas não obtiveram sucesso, principalmente por causa do endurecimento da lama, que dificulta o uso de maquinário pesado.

Cenário

Na região do Parque da Cachoeira, onde as buscas acontecem com auxílio de helicópteros e cães farejadores, a propriedade rural “Sonho Meu”, destruída pela enxurrada de rejeitos de minério, conserva destroços impactantes, como uma caminhonete revirada e um sofá intacto sobre os destroços do telhado.

Só nessa região, o pedreiro Adenil Silva Santos, de 50 anos, conduziu cerca de 30 pessoas no fim de semana, entre curiosos de outros estados e visitantes do Inhotim, maior museu a céu aberto do mundo. Ele tem atuado como uma espécie de guia na área afetada pela lama, denunciando a catástrofe e acompanhando as atividades da Vale.

“Não cobro nada para trazer as pessoas aqui. Quero é que todos saibam o que está acontecendo em Brumadinho. Vem muita gente, centenas de pessoas por dia que se impressionam com esse cenário. Muitos turistas do Inhotim e gente de outros estados, como Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo e Goiás. Param, fazem fotos, postam nas redes sociais. Acho que ajuda”, diz Adenil, que há 30 anos vive em Brumadinho.

O técnico em mecânica Fábio Silva Nogueira, de 37 anos, fretou um serviço de moto-táxi por R$ 10 para conseguir chegar a locais mais difíceis, incluindo os arredores da Mina Córrego do Feijão. Natural de São Paulo, Fábio faz parte da ONG Frente Favela Brasil e está há duas semanas em Brumadinho, ajudando com a distribuição de alimentos e água.

“No meu tempo livre, tenho tentado registrar tudo o que posso da lama. É triste porque às vezes acho que posso encontrar alguém, mas a sensação real é de angústia e impotência”, diz Fábio.

Entre a ajuda e a curiosidade

Magali e o marido Ronaldo fazem questão de ir às regiões devastadas na tentativa de encontrar desaparecidos

Oração

Comovido com a catástrofe, um grupo de cinco professoras paulistas resolveu parar em Brumadinho nesse domingo para ver o estrago de perto, antes de seguir para Inhotim. “É difícil ir se divertir passando por aqui e não parar. Fizemos uma oração para as vítimas aqui na entrada da cidade e vamos ver a lama”, disse a educadora Ester Toledo, de 42 anos.

Até mesmo moradores de Brumadinho que não perderam parentes na tragédia têm percorrido as áreas atingidas em busca de algum sinal de esperança. A jornalista Magali Santana, de 50 anos, diariamente visita o Parque da Cachoeira e as redondezas de Córrego do Feijão.

Acompanhada pelo marido, Ronaldo Camargo, de 55 anos, ela tenta encontrar algum dos desaparecidos. “Não quero desistir. Ver crianças chorando a morte de familiares de quem elas não puderam se despedir é revoltante”, diz Magali.

Restrições 
Segundo o major Flávio Santiago, chefe da comunicação da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), moradores e turistas não estão autorizados a entrar em áreas inundadas pela lama, devido aos riscos, inclusive de contaminação causada pelos rejeitos tóxicos de minério.

“A orientação é não desrespeitar as áreas sinalizadas. Até porque os profissionais que atuam na lama têm tomado medicação para evitar contaminações. A PM está autorizada a retirar moradores flagrados em áreas indevidas”, reforça.

Além disso

A ArcelorMittal informou, por meio de nota, que três famílias retornaram para as casas, nesse domingo, no distrito de Pinheiros, em Itatiaiuçu.

De acordo com a empresa, elas foram autorizadas pela Defesa Civil e pela Polícia Militar (PMMG) após nova avaliação de riscos da barragem Serra Azul, uma das barragens inspecionadas após alerta emitido na sexta-feira (8). A reportagem tentou confirmar a informação com a Defesa Civil, mas não conseguiu contato.

Conforme o texto, a conclusão das autoridades é que os imóveis das três famílias, que totalizam seis pessoas, estariam fora da área de influência da barragem. “A transferência dessas pessoas havia ocorrido em função do rigor necessário adotado nas medidas de segurança e ações preventivas. Um casal com filho, uma mulher e duas senhoras decidiram retornar às suas casas. Outras cinco famílias, que também estavam autorizadas, preferiram permanecer no hotel. Neste momento, há 106 pessoas de 28 famílias hospedadas no hotel em Itaúna. Uma revisão do cadastro apontou que casais não haviam registrado o nome dos filhos”, diz a nota.

A empresa informa ainda que, no hotel, trabalha em plantão um médico do Programa da Saúde da Família (PSF) em Itaúna, realizando atendimento dos moradores. Até o momento, foram feitas 45 consultas e todos os casos foram considerados sem gravidade. Em casos emergenciais, está previsto encaminhamento para exames em laboratórios em Itaúna ou no Hospital Manoel Gonçalves. Segundo a nota, com o início da semana, todos os alocados no hotel de Itaúna terão transporte garantido na região. 

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