Mais de 270 candidatos a uma vaga na UFMG, autodeclarados negros, terão um dia decisivo nesta terça-feira, quando será divulgado documento com a relação de nomes de aprovados na segunda banca de heteroidentificação racial da universidade. Entre as centenas de casos analisados estão os de pessoas que tiveram a matrícula indeferida na primeira etapa do processo, mas que apresentaram recursos. Naquela fase, no último mês, 885 passaram pela banca, e 346 não conseguiram aval para ingressar na instituição por meio do sistema de cotas. 

Este é o primeiro ano em que uma comissão, composta por professores, funcionários e alunos, avalia critérios fenotípicos de postulantes às vagas reservadas. O grupo também leva em conta a abordagem social daquele que pretende ocupar uma das cadeiras da universidade federal.

Entre os que passaram pelo filtro criterioso há quem veja a medida como positiva, mas com ressalvas. “É certo ter a banca, pois muitas pessoas tentam burlar. Porém, não concordei com as matrículas indeferidas”, disse um candidato que participou da banca e pediu anonimato. “Como você pode ver, pelo meu perfil, não me enquadro na cor branca”, disse o universitário à reportagem do Hoje em Dia. 

“Não temos interesse em julgar ninguém como negro ou qualquer outro padrão. Mas, sim, temos de traçar o perfil do estudante que realmente precisa da política pública”
Alexandre Braga
Membro da comissão de heteroidentificação e presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro)

Outro estudante que participou da banca e também pediu para que não tivesse o nome publicado contou ter ficado incomodado com a situação. “É muito ruim ter a minha cor contestada. É claro que há fraudes, mas é péssimo passar por ‘especialistas de cor’”, criticou.

Garantia

Para Filippe de Mello, do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) e integrante da Comissão de Psicologia e Relações Étnico-Raciais, a banca pode ser contestada. “Entendo como tentativa de ampliar a autode-finição. Por outro lado, isso pode não ser tão interessante porque destituiu a condição de o próprio negro dizer-se negro”, afirma, alertando ainda para o risco de colorismo –discriminação pelo tom de pele.

Membro da comissão de heteroidentificação e presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga explica que o grupo de análise tem papel de contribuir para que as vagas sejam ocupadas, de fato, por quem têm direito. Nos últimos dois anos, casos de fraudes na UFMG foram denunciados por universitários.

“Não temos interesse em julgar ninguém como negro ou qualquer outro padrão. Mas, sim, temos de traçar o perfil do estudante que realmente precisa da política pública”, diz Alexandre. “Não queremos prejudicar. Se a pessoa não foi aprovada naquela categoria, pode tentar de novo observando os critérios”, acrescentou. A banca de heteroidentificação continuará funcionando até o fim deste mês. 

Como funciona a banca examinadora