O sorriso estampado no rosto de Gecilene Oliveira não se resume ao aniversário de 36 anos, celebrado hoje. A expressão representa a vitória pela vida do filho depois de uma longa e árdua caminhada. Mãe de Matheus Teodoro Oliveira, de 8, que ficou nacionalmente conhecido após necessitar de um transplante raríssimo de intestino, a mineira comemora a plena recuperação do garoto nos Estados Unidos. No domingo, a cirurgia completa um ano. 

Na terra do Tio Sam, o menino – que também não enxerga – se sente em casa diante de tamanha acolhida da família e dos profissionais da unidade de saúde, onde faz o tratamento de uma displasia neural intestinal, doença que o impedia de se alimentar. De cabeça erguida, com muita alegria e força de vontade de sobra, Matheuzinho surpreende a todos pela disposição em vencer essa batalha. 

Por ano, 150 transplantes de intestino são feitos nos Estados Unidos, sendo 25% deles no Jackson Memorial Hospital, em Miami; no Brasil, a cirurgia ainda não é realizada

“Estar com ele, com ótimos exames e uma ótima recuperação, é um grande presente de aniversário para mim. Ele está forte, muito mais forte do que antes. É bem visível”, conta Gecilene.

Contagiante

O otimismo e o bom humor de Matheus contagiam não apenas a mãe, mas toda a equipe do Jackson Memorial Hospital, em Miami. O médico que acompanha o caso nos EUA é um brasileiro. Cirurgião-chefe da equipe, Rodrigo Vianna diz que o tratamento entra agora na fase final, mas ainda não há previsão de término.

 

Matheus
Jennifer Garcia, Matheus e Rodrigo Vianna; ao fundo, Christopher Salgado e a Deanna Williams 

Segundo o especialista, o garoto está pronto para aproveitar cada vez mais essa alegria em outras atividades rotineiras para crianças da idade dele, como brincar. “Ele se adapta às novas situações que são colocadas e responde com um progresso muito grande. Matheus é o símbolo da vida, sempre com muita alegria. É recompensador ver até onde ele chegou”, afirma.

Toda essa energia é fundamental para o tratamento. De acordo com Julia Khoury, psiquiatra e professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, o comportamento de Matheuzinho interfere diretamente na recuperação. Ela cita uma das várias pesquisas desenvolvidas sobre o tema, feita em 2014.

“Ele sofria muito com a vontade de comer. Sentia o cheiro dos alimentos, colocava pedacinhos na boca, mas passava mal, vomitava. A única coisa que tem que evitar agora é doce. Ele fica querendo e eu libero chocolate, mas só uma vez por semana” (Gecilene Oliveira, mãe de Matheus)

Um estudo da universidade americana de Harvard acompanhou vítimas de infarto durante um ano. Aquelas que relataram acreditar na melhora, de fato, tiveram evoluções ao fim dos 365 dias. Nas crianças, a ajuda se dá a partir de uma</CW> palavra pouco usada: resiliência. Ou seja, a capacidade de adaptação a situações diversas. “Mesmo que as crianças não tenham consciência disso quando adoecem, as que mantêm o otimismo e a resiliência realmente se recuperam mais rápido”, aponta Julia Khoury.

Chance de saborear alimentos e perspectivas para a visão

Um ano da cirurgia de transplante de intestino. A importante data na vida de Matheuzinho será completada neste domingo. De lá para cá, só boas notícias. O garotinho deu adeus à alimentação feita por meio de uma sonda e já pode mastigar. Ele come de tudo: prefere pastel e estrogonofe, mas aceita arroz com feijão, frutas, iogurte e até berinjela. “Frita, cozida. Ele come com a carinha mais gostosa”, diz Gecilene Oliveira, enfermeira de formação e, agora, particular do filho. As refeições são feitas em casa para evitar infecções que poderiam trazer complicações ao intestino. “Só não come ovo e banana, simplesmente porque não gosta”.

Passados 12 meses, Matheus ganhou cinco quilos – hoje está com 23,8Kg. Ele ainda precisa usar, no entanto, a bolsa de colostomia. Agora mais forte, se prepara para uma nova batalha. Terminado o tratamento do intestino, será iniciada a tentativa de um transplante de córnea. Atualmente, o menino distingue apenas o claro e o escuro. “Queremos agarrar essa chance porque no Brasil não havia o que fazer”, diz Gecilene.

A falta de visão, porém, não é empecilho. Sozinho, Matheus aprendeu a usar massinha de modelar. Ele toca alguns objetos e os reproduz.

Justiça

O tratamento atual nos Estados Unidos só foi possível após decisão judicial. Gecilene reclama que o valor liberado pelo Ministério da Saúde custeou os valores mais altos, mas é insuficiente para a recuperação em casa. Ela utiliza um dinheiro arrecadado em campanha nas redes sociais. “Não recebemos nenhum valor (para o home care – cuidados em casa)”, acrescenta a mãe.

Procurado, o ministério informou realizar rigorosamente todos os pagamentos. Segundo a pasta, em 2016 foram destinados R$ 4,9 milhões para transporte em UTI aéreo e tratamento médico hospitalar, além do home care. O governo federal afirma ainda que, desde março de 2017, faz repasses de US$ 7 mil dólares por mês.

“Além disso, a família também angariou recursos por meio de campanha que devem ser usados, conforme determinação judicial. Por fim, o Ministério da Saúde informa que, em junho de 2017, depositou em juízo o valor de R$ 200,3 mil para manutenção do paciente no Estados Unidos”, segundo a assessoria de imprensa da pasta federal.

Homenagem

A história de Matheuzinho ganhou o Brasil e emocionou, também, um ídolo do menino. Criador da Turma da Mônica, Mauricio de Sousa afirmou ter ficado tocado com a trajetória do garoto. Ao cartunista chegou a notícia de que um de seus personagens inspirou o apelido dado por Matheus ao intestino que recebeu. Esbanjando criatividade, o menino passou a chamar o órgão de “Chico Pum Bento”, uma referência carinhosa ligada ao novo estilo de vida – com o sucesso da cirurgia, Matheuzinho pôde enfim se alimentar e, comendo de tudo, passou a sofrer com gases. 

Chico Pum BentoCartunista Maurício de Souza fez homenagem para o pequeno gerreiro

“Percebemos o quanto as crianças sentem nossa turminha como companheira nas horas felizes e nas mais complicadas. Podemos dizer que o Chico Bento (apesar de achar que esse apelido deveria ser mais apropriado para o Cascão) está muito feliz de participar do pronto restabelecimento do Matheus”, revelou Mauricio ao Hoje em Dia. O desenhista ainda desejou a total recuperação do garoto. “Que ele consiga também resolver o problema com a visão para poder ler historinhas da turminha e se divertir com elas. E parabéns à mamãe e a toda a família pelo apoio e amor que estão dando ao Matheus”.