Ao apagar das luzes, ela mesma quase não se dá conta do lugar onde há quatro décadas decidiu viver. Não fosse o som da rua, das buzinas que insistem em perturbar a madrugada e do vaivém dos carros, do alto do 26º andar dona Esmeralina Costa de Oliveira nem se lembraria que a vida por ali nunca para. A senhorinha de 88 anos é uma das mais antigas – e simpáticas – moradoras do Condomínio Arcangelo Maletta. Cravado no coração da cidade, o edifício cinquentenário é um dos mais resistentes ao passar dos anos e à história de Belo Horizonte.
 
Legítimo representante da boemia mineira e da resistência política, ponto de encontro dos mais heterogêneos, o condomínio é o primeiro personagem de uma série de reportagens que o Hoje em Dia passa a publicar aos domingos, sobre os prédios históricos da capital.
 
Erguido no movimentado cruzamento da rua da Bahia com avenida Augusto de Lima, no Centro, o Maletta foi inaugurado em 1961. Por décadas, foi ponto de encontro, refúgio dos esquerdistas, que discutiam política e se blindavam contra a censura da ditadura militar.
 
“Havia um senhor, ele já até morreu, que escondia o pessoal dos partidos contrários, no sótão. E quando chegavam perguntando sobre que barulho era aquele, ele dizia que era um gambá que bebia cachaça”, lembra, às gargalhadas, a moradora do apartamento 2.610, dona Esmeralina, mencionando os comunistas que se asilavam no local.
 
Simbolismo
 
Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, Leonardo Castriota explica que o simbolismo da construção está relacionado à época em que foi erguido e aos fatores cultural e político. “Do ponto de vista arquitetônico nem tanto, é um prédio simples, apesar de moderno, com elementos democráticos e geométricos, mas marca o período da contracultura”, diz.
 
Para a historiadora Regina Helena Alves da Silva, professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG e pós-doutora em Cidades e Culturas Urbanas pela Universidade de Coimbra, em Portugal, o Maletta sobreviveu pelos usos múltiplos e pela especial capacidade de “mudar, sem mudar muito”. “Além de ser moradia, é um espaço de encontro, e cada cidade tem o seu. Sem dúvida, o Maletta é o nosso”, afirma.
 
CANTINA DO LUCAS
 
E nesse ponto, o empresário Edmar Roque concorda. Proprietário de um dos mais emblemáticos espaços do edifício, a Cantina do Lucas, ele afirma, categórico, que uma história caminha com a outra. “O considero, sinceramente, o mais importante edifício de BH. Conservar a tradição, acompanhando a modernidade sempre foi nosso lema. Acho que, por isso, sobrevivemos há tanto tempo”.
 
O restaurante foi inaugurado em 1962 e ocupa, desde então, espaço nobre no térreo. Tombado em 1997 como bem cultural imaterial pelo Conselho do Patrimônio do município, o Lucas, como é simplesmente chamado pelos frequentadores, já foi palco de histórias divertidas, inusitadas até.
 
“Todas elas passam pelo “seu” Olympio. A cantina foi aberta em fevereiro de 1962, e em dezembro ele já estava aqui. À noite, quando ele estava abaixando as portas e era perguntado por um ou outro cliente sobre o que ainda saía da cozinha, ia logo dizendo, “o que dá pra sair é você”, lembra Edmar sobre o funcionário, que morreu há dez anos.
 
No pequenino apartamento onde divide espaço com sua floresta particular, uma dezena de folhagens espalhadas pela sala, o que também não falta a dona Esmeralina são histórias. Na memória que, insiste ela, tem costumado falhar, as lembranças, sempre boas, se misturam. “Uma história? É difícil escolher. Mas, imagina só viver num lugar como esse, uma cidade dentro de outra cidade? Só saio daqui se for direto para o crematório”, avisa.