Problemas financeiros podem comprometer o funcionamento de uma das principais Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) de Belo Horizonte, a Centro-Sul, responsável pelo atendimento diário de cerca de 300 pacientes. Administrada pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) desde 2008, em uma parceria com o município, a unidade chegou a ficar até sete meses sem receber um centavo de repasse da prefeitura. 
 
Para não afetar o atendimento, a Fundep tem arcado com os custos. Um rombo milionário no orçamento da fundação, vinculada à UFMG, que gasta, em média, R$ 1,5 milhão por mês para manter a unidade, segundo dados da própria Secretaria Municipal de Saúde.
 
Após o término do contrato, em julho do ano passado, ficou acordado que a Fundep seguiria gerindo a UPA Centro-Sul. A planilha de gastos, apresentada mensalmente, seria coberta pela PBH. Entretanto, desde novembro de 2013, o pagamento tem atrasado com frequência, gerando um efeito cascata: a fundação enfrenta dificuldades para honrar compromissos com fornecedores de medicamentos, equipamentos médicos e outros itens.
 
A reportagem do Hoje em Dia localizou dois fornecedores da UPA, que relataram atrasos nos pagamentos. Um deles realiza exames laboratoriais (Laboratório Núcleo) e o outro supre a unidade com aparelhos de urgência e emergência (Vitae Tecnologia). Ambos chegaram a ficar um mês sem receber, mas as atividades não foram suspensas por serem consideradas essenciais e de grande impacto.
 
No vermelho
 
A Fundep reconhece os contratempos para arcar com todos os custos. Em nota, a fundação informou que “as restituições não têm acontecido em tempo hábil para atender aos compromissos firmados perante os fornecedores e, consequentemente, a fundação nem sempre tem condições de disponibilizar recursos próprios para fazer face às despesas”. 
 
O Hoje em Dia tentou falar com o reitor da UFMG, Jaime Ramírez, para saber de onde a Fundep tem tirado o dinheiro para cobrir os gastos com a UPA e quais os impactos dessa medida para a universidade, mas ele não foi encontrado para falar sobre o assunto até o fechamento desta edição. 
 
A Fundep não informou o valor exato da dívida atual da prefeitura. A PBH também não revelou quanto deve à fundação, somente que o repasse mensal gira em torno de R$ 1,5 milhão. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde justificou os atrasos no pagamento: “As restituições precisam seguir processos de auditoria previstos nessas modalidades de repasse, o que demanda cerca de 45 a 60 dias, dependendo de eventuais pendências”.
 
Arrocho nas contas
 
A Secretaria garantiu que o funcionamento da UPA Centro-Sul permanece regular. São realizados, em média, 4 mil atendimentos de urgência e emergência por mês (fora atendimentos gerais). Não foi esclarecido, porém, quando a dívida será saldada com a Fundep e de onde virá o dinheiro. 
 
A situação tende a se complicar, considerando o contexto financeiro atual. Pela primeira vez em cinco anos, a prefeitura não deve registrar alta na receita orçamentária. Como informou o Hoje em Dia na edição de 4 de novembro, para não fechar o ano no vermelho, a PBH anunciou uma série de cortes de gastos. Entre eles, a alteração na escala do pagamento dos servidores e a limitação dos empenhos para compra de produtos ou serviços.
 
Unidade é referência para pacientes de BH
 
Mesmo localizada na região Leste de BH, e tendo como prioridade o atendimento à população em seu entorno, a UPA Centro-Sul recebe, todos os dias, pessoas de várias partes da capital. Isso porque, conforme os próprios pacientes, o serviço prestado na unidade de saúde é diferenciado, ficando acima daquele oferecido em outras UPAs da capital.
 
Característica que atraiu o técnico em manutenção pesada Jorge Luís Planza, de 51 anos. Quando a filha da namorada dele ficou doente, na última sexta-feira, o casal chegou a procurar ajuda na unidade de saúde perto de onde moram, em Venda Nova, mas não chegaram a ser atendidos. “Viemos para cá em busca de ajuda, e o atendimento foi muito melhor. Não tivemos que esperar muito. Os profissionais são muito atenciosos”.
 
Outro que tinha opção por ser atendido em uma UPA mais perto de casa e acabou escolhendo seguir para a Centro-Sul foi o pedreiro Benedito Rosa da Silva Júnior, de 38 anos. “Aqui tudo é melhor. Não é preciso esperar muito para falar com o médico, e a estrutura é boa. Bom seria se todas fossem assim”.
 
Ao ser questionado sobre a possibilidade de piora nos serviços da unidade por conta de problemas financeiros, Benedito não tem dúvidas sobre o prejuízo para a cidade. “Seria uma pena. Um lugar como esse é essencial para todo mundo”, afirmou.
 
Opinião compartilha pelo zelador José Roque Daher, de 44 anos. Ele foi atendido na unidade na última sexta-feira, após passar mal no trabalho. Na saída da UPA, ainda assustado com a possibilidade de sentir novamente as dores que o haviam atormentado pela manhã, ele ressaltou a importância do serviço prestado no local. “Foi a primeira vez que estive aqui e, com certeza, é o lugar que vou procurar caso precise novamente. Não sei se há algum problema, mas espero que não atrapalhe o funcionamento da UPA”.
 
Serviço reduz demanda de pacientes por hospitais
 
A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e pode resolver grande parte das urgências e emergências, como pressão e febre alta, fraturas, cortes, infarto e derrame. Com isso, ajuda a diminuir filas nos prontos-socorros dos hospitais.
 
As UPAs fazem parte da Política Nacional de Urgência e Emergência, lançada pelo Ministério da Saúde em 2003. O serviço estrutura e organiza a rede de urgência e emergência no país. As unidades são divididas em três tipos:
 
- UPA Porte I: tem de cinco a oito leitos de observação e capacidade de atender até 150 pacientes por dia. 
A população na área de abrangência varia de 50 mil a 100 mil habitantes. 
 
- UPA Porte II: tem de nove a 12 leitos de observação e capacidade de atender até 300 pacientes por dia. 
A população na área de abrangência varia de 100 mil a 200 mil habitantes. 
 
- UPA Porte III: tem de 13 a 20 leitos de observação e capacidade de atender até 450 pacientes por dia. 
A população na área de abrangência varia de 200 mil a 300 mil habitantes.