Usuários do transporte coletivo de Belo Horizonte deixaram de fazer mais de 85 milhões de viagens nos últimos cinco anos. A queda expressiva é motivada por diversos fatores, como a oferta de carros por aplicativo e o preço da passagem de ônibus. Só de 2018 para 2019, o número de viagens caiu em 20 milhões. Em um círculo vicioso, essa demanda menor deve encarecer as tarifas do serviço.

A redução do número de passageiros também tem impacto direto na qualidade do sistema de ônibus, frisa o especialista em transporte e trânsito Márcio Aguiar. 

“Quando a demanda cai, o custo não acompanha essa redução. Sempre haverá aumento da tarifa, ano após ano, tendo mais ou menos usuários”.

QUALIDADE

Os reajustes, porém, não implicam em melhorias na prestação do serviço. “E se não há essa atenção com a qualidade, certamente haverá mais fuga das pessoas dos coletivos. Diante de um transporte ruim, elas procuram alternativas, como motocicletas e carros”, destaca o consultor.

Para o presidente da Associação de Usuários de Transporte Coletivo da Grande BH (AUTC), Francisco de Assis Maciel, a tendência é a de que o número de passageiros continue a cair, motivado pela migração do usuário para outras alternativas de transporte. 

Segundo ele, o serviço por ônibus é deficitário e esse quadro só poderia ser revertido a partir de uma mudança no trato do poder público com o que é oferecido.

“Hoje, a lógica do transporte coletivo é de mercado e não de direito social garantido à população, como prevê a Constituição Federal. A BHTrans deveria fiscalizar e normatizar, como serviço de interesse público da cidade de Belo Horizonte”, afirma. Segundo estudos próprios da AUTC, o valor de um bilhete de ônibus em BH deveria estar em R$ 2,80. 

O déficit de usuários, na análise de Maciel, é explicado pela seguinte matriz multifatorial: aplicativos de transporte podem apresentar viagens a preços competitivos, e com conforto; o preço da passagem é alto e excludente; opção pela caminhada e pelo uso de modais não-motorizados, como bicicletas; precarização do transporte por ônibus, com retirada de cobradores e fusão de linhas.

Para o superintendente de Transporte Público da BHTrans, Sérgio Carvalho, a queda no número de usuários – de cerca de 2,9% ao ano desde 2012 – pode ser entendida por dois principais pontos. “O transporte coletivo é muito sensível às questões econômicas do país, ou seja, a partir da economia: se ela estagna ou reduz, o transporte também cai”, afirmou.

Já o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH), Joel Paschoalin, diz que a explicação para a queda no número de usuários está em um ciclo negativo, que precisa ser alterado: “Os ônibus estão mais lentos, o que afasta os passageiros. Com menos passageiros e menor velocidade, os custos das viagens são maiores. Com custos maiores, as tarifas aumentam. Com tarifas mais altas, mais passageiros desistem de usar o transporte público. Precisamos inverter essa lógica com políticas que priorizem o transporte coletivo por ônibus”. 

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