O hábito de armazenar água da chuva como forma de economizar e a incidência do tipo 2 do vírus da dengue podem ter contribuído para o surto da doença no Estado. Somente em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, um dos municípios com o maior número de registros, foram 23.829 casos notificados este ano, contra 568 no mesmo período do ano passado. No total, já são nove mortes confirmadas por dengue na cidade e sete óbitos em investigação. 

O coordenador do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), Christovam Barcellos, acredita que o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho tenha contribuído indiretamente para o aumento do número de casos da doença no município. 

"Além da proximidade entre as cidades, o rio Paraopeba foi totalmente degradado pela lama de rejeitos e isso afetou o abastecimento de água na cidade. Isso fez com que as pessoas começassem a improvisar reservatórios domésticos de água, com medo de o recurso faltar, sem os cuidados necessários. Vale lembrar que baldes, barris e outros tonéis para reservar água devem ser devidamente lacrados ou telados para evitar a proliferação do mosquito", explica.  

Mas, segundo o diretor de Vigilância em Saúde de Betim, Nilvan Baeta, a cultura de se armazenar água na cidade precede o rompimento da barragem e o problema com o rio Paraopeba. O hábito vem desde o período de seca pelo qual passou o Estado em 2017. 

"No momento não há estudos que confirmem essa relação. Acredito que outras epidemias podem surgir por causa da tragédia, porque é claro que isso altera o meio ambiente e, consequentemente, a saúde humana, mas não o surto de dengue que estamos passando agora. Como tivemos há dois anos o problema da falta de água, a população acabou criando o costume de armazenar água da chuva para limpar o jardim, por exemplo, e economizar na conta de água e, muitas vezes, se esquecem de colocar uma tela de proteção no reservatório", explica. 

O coordenador da Área Temática em Vigilância em Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, Francisco Lemos, também afirma que não é possível relacionar o surto ao rompimento da barragem, mesmo porque, historicamente, as epidemias da doença ocorrem de três em três anos, como foi registrado no Estado nos anos de 2010, 2013, 2016 e, agora, em 2019.   

"Não há como dizer que o rompimento tem relação direta e imediata com o aumento da doença em Betim, pois para isso, eu deveria justificar também o aumento em outros municípios, como em Uberlândia. As consequências da tragédia podem surgir no médio e longo prazo, mas não há como trazer para um problema complexo como a dengue uma causa tão simples. E o aumento no número de casos no Estado já vinha ocorrendo desde o fim do ano passado, antes do rompimento", conclui. 

A Copasa informou que Betim parou de receber o abastecimento de água do rio Paraopeba no mesmo dia do rompimento da barragem, 25 de janeiro. Desde então, o abastecimento é feito pelas represeas Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores e pelo rio das Velhas, mas estas alternativas para o abastecimento tem capacidade para atender a população somente por 20 meses, ou seja, até o início de 2021. 

Dengue tipo 2

O diretor de Vigilância em Saúde de Betim, Nilvan Baeta, também aponta a insurgência do tipo 2 do vírus da dengue como causa para o grande aumento no número de casos da doença em Betim. "Na cidade, não tínhamos esse tipo do vírus circulando há bastante tempo. Então, a população está mais vulnerável a contrair a doença".   

O porta-voz da Secretarial Estadual de Saúde para o assunto, Francisco Lemos, confirma:  "A gente está tendo em Minas a introdução do vírus 2 da dengue, ao qual praticamente 100% da população não tem imunidade e está exposta ao vírus".

Segundo o Ministério da Saúde, existem quatro tipos de vírus da dengue, os sorotipos 1, 2, 3 e 4, e cada pessoa pode contrair os quatro tipos ao longo da vida, no entanto, a infecção por um sorotipo gera imunidade permanente para ele, mas não para os demais.  

Uma das formas que a Secretaria de Saúde de Betim encontrou para conter o avanço da doença foi voltar a utilizar o decreto 26.882 de 2009 e a Lei Federal 13.301 de 2016, que autorizam a entrada forçada nas residências abandonadas que possam ter focos do mosquito. 

Para este mês, estão programadas 40 entradas forçadas em residências da cidade e a ação vai permanecer durante todo o ano. Segundo Baeta, diariamente ocorrerão pelo menos duas entradas forçadas em Betim. As residências são mapeadas pelos próprios agentes de combate a endemias que já fazem o trabalho de visitas às casas. Mas a população também pode solicitar a entrada forçada em casas abandonadas ou lotes vagos por meio da ouvidoria da prefeitura, nos telefones 3512-3453 ou 3512-3454.  

Clima

Outro fator determinante para o aumento da doença no Estado é o desequilíbrio ambiental que reflete no fator climático. Com estações e períodos chuvosos já não muito delimitados, o período de "alta" da doença pode se estender por mais tempo do que o previsto. 

Como explica o pesquisador Christovam Barcellos, geralmente, a doença aumenta em fevereiro, março e abril e costuma a cair a partir de junho, quando a temperatura começa a esfriar. "Mas se a tendência de calor com chuva continuar em Minas, a doença vai aumentar ainda mais, e não diminuir. O jeito é torcer para realmente as temperaturas baixarem", conclui. 

Junto a isso há também o fato de se "baixar a guarda" no período entre as ondas epidêmicas de dengue, que ocorrem a cada três anos, como explica Francisco Lemos. "O poder público mantém as ações contra a doença durante todo o ano, mas quando há a baixa incidência entre as ondas fortes de dengue, a população acaba relaxando, acha que a doença ficou no passado e que não é mais um problema atual, e volta a deixar água acumulada, vasinhos de plantas dentro de casa, piscinas descobertas etc", conclui.   

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