Quase 40% das policiais femininas já sofreram algum tipo de assédio (moral ou sexual), mas apenas 11,8% prestaram queixa, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O estudo foi realizado em fevereiro, com 2.415 profissionais de todo o Brasil. O baixo índice de denúncias revela como as corporações de segurança tratam esse tipo de situação.

Em Minas, a Polícia Civil teve, oficialmente, apenas uma denúncia de assédio sexual nos últimos três anos. A PM não tem registros sobre esse tipo de ocorrência, segundo a assessoria de imprensa da corporação.

Os dados, entretanto, não condizem com a realidade, segundo a policial militar R.J.A., de 25 anos, que pediu para não ser identificada. Ela e três colegas afirmam ter sido vítimas de assédios moral e sexual por um oficial na região do Alto Paranaíba. “Há um temor muito grande de quais vão ser os desdobramentos, como vingança e perseguição. Com medo, muita gente não faz nada”.

A policial conta que os episódios começaram com humilhações e depois com investidas para sair depois do trabalho. “Diante das recusas, ele começou a nos punir e perseguir”.

Para a pesquisadora Ludmila Ribeiro, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp/UFMG), parceiro do estudo, a mentalidade machista dentro das corporações é o principal causa dos assédios. “Existe uma ideia de que as mulheres precisam se submeter a favores sexuais para crescer nas corporações”, afirma.

Para R.J.A., não foi diferente. Ela conta que teve muito receio de fazer a queixa, e alguns militares até a alertaram de possíveis retaliações. “Falaram que não ia dar em nada e que a gente ainda ia ser punida”.

Mudar essa realidade não é tarefa fácil, destaca Ludmila. “A gente tem que fazer um trabalho de conscientização para que todos entendam que a mulher não é um objeto e precisa ser respeitada como qualquer outro profissional”.

Deputado afirma que, na maioria das vezes, corporações ‘escondem os casos’

Autor do requerimento de uma audiência pública para averiguar denúncias de assédio sexual envolvendo policiais militares, o deputado Cabo Júlio (PMDB) destaca que, quase sempre, a corporação esconde os casos. “Eles abafam da forma mais absurda. No máximo, dão uma punição branda”, diz.

Para A.P.C., outra vítima de assédio no interior de Minas, a situação não teria um desfecho sem a intervenção da Assembleia. “Foram mais de dois anos convivendo com ele sem que fizessem nada”, disse a policial, que até hoje tem medo de retaliação.

A Polícia Civil informou que um conselho de ética funciona ligado diretamente à Corregedoria-Geral, que, por sua vez, tem representações em todas as regiões do Estado para acolher qualquer tipo de denúncia. A PM informou que, dependendo da gravidade do caso, o policial que assediar pode ser expulso.