Dois dias depois de ir ao ar a entrevista em que Danilo Gentili afirma que o Paulo Freire "soa como um estelionatário", a viúva do autor, Ana Maria Araújo, a Nita Freire, de 85 anos, defendeu em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia que o humorista e apresentador "merecia ser preso". A viúva, que também é educadora, participou nesta quinta-feira (23) de um evento da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e lotou o Teatro Marília de estudantes de pedagogia em busca de relatos do convívio com Freire, que é considerado o patrono da educação no Brasil.

Na última terça-feira (21), durante a entrevista ao programa #Provocações, com apresentação de Marcelo Tas, Gentili citou uma única frase do autor para justificar o seu argumento: Eva viu a uva. "Isso na verdade é de uma cartilha de alfabetização da época, que o Paulo usava para criticar e propor algo diferente. Eu acho que ele (Gentili) merece ir para a prisão, não só por isso, mas também pelo que vem fazendo ao meu marido. Isso não se faz, se você quer contribuir para a sua pátria, se quer fazer uma sociedade mais bonita, não se fala essas coisas", pontua Nita. 

Durante o programa, Tas chegou a indagar o entrevistado sobre alguma outra frase de Freire, sendo que Gentili disse não ter gravado nenhuma na memória pois "não gosta". Perguntada sobre qual frase indicaria para o humorista, Nita citou um trecho de seu último livro "Pedagogia da Autonomia", de 1997. "Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu ‘destino’ não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir". 

A reportagem entrou em contato com Danilo Gentili, que se posicionou por meio de nota. "Já vi que não pode falar mal de Paulo Freire. Ele parece ser sacrossanto para vocês. Por isso mesmo no meu próximo show eu vou dedicar um set inteiro de piadas só para ele. Obrigado por me apontarem um bom alvo para piadas", disse o apresentador. 

Paulo Freire nasceu em 1921 em Recife, Pernambuco e, em sua obra, fica sempre clara sua defesa aos oprimidos. Em 1964, ele era responsável pelo programa de alfabetização do governo João Goulart, que foi deposto pelos militares. O educador chegou a ser preso por mais de 70 dias e, após conseguir a liberdade, ficou exilado do país por 16 anos. Ele é o brasileiro mais homenageado de todos os tempos, tendo recebido 29 títulos de Doutor Honoris Causa em univerdades da Europa e América. Em 2016, um estudo britânico apontou que ele era o terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos de humanas nas universidades de língua inglesa, que incluem Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e outros.

"O legado do Paulo Freire para a educação é sem tamanho. Ele criou uma teoria do conhecimento amorosa, humanista, prestando atenção em cada pessoa desse país para que se desse, através dessa teoria, a possibilidade de se tornarem sujeitos da nossa história. Eles falam em 'expurgar' a teoria das escolas do Brasil, mas sabe quando vão conseguir isso? Nunca! Quem leu Paulo com receptividade, querendo ver a teoria científica, não abre mão das suas ideias jamais", completou Nita. 

A viúva se casou com Freire em 1988, dois anos após a morte da primeira esposa do pensador, Elza Maia Costa de Oliveira. Entretanto, ela conviveu com ele desde pequena e, durante o evento, contou como o conheceu. "Ele era de classe média, mas com a crise de 29 a família dele perdeu tudo e eles mudaram para Recife. Na época não tinha escola pública, então a mãe dele foi batendo de escola em escola procurando uma vaga para ele estudar de graça. Quando estava quase desistindo, ela entrou na escola que meu pai era dono e diretor. Ele ofereceu a bolsa com a condição de que fosse para alguém que quer muito estudar", lembrou. 

O evento 

Nita Freire foi a convidada especial de um evento que celebrava os 30 anos da UEMG, os 10 anos do programa de pós-graduação da Faculdade de Educação e, também, do lançamento do livro "Pedagogia do Oprimido em Perspectiva", escrito em conjunto por professores de várias áreas do conhecimento e que trata sobre a obra mais significativa de Paulo Freire. 

Daniel Ribeiro de Almeida Chacon, professor da UEMG e organizador do livro, conta que Nita participou da produção do trabalho, que discute as contribuições do autor para as questões da educação e para a sociedade como um todo. Para ele, os ataques recentes sofridos por Freire ocorrem em duas instâncias. 

"A primeira é consequência de um espírito muito comum hoje, principalmente nas redes sociais, que é o anti-intelectualismo, fruto dessa época da pós-verdade, das fake news. Muitos desses ataques são à pessoa e não ao conhecimento, sequer sabem a proposta pedagógica dele. Em segunda instância, acredito que seja por conta do fato do pensamento dele motivar a consciência política, o questionamento da desigualdade do país", argumenta o professor. 

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