Assaltos à mão armada, furtos, agressões, ameaça, invasão, arrombamento e estelionato. Ocorrências deste tipo mais que dobraram nos comércios do setor alimentício de Belo Horizonte este ano. Um levantamento feito pela Federação do Comércio do Estado de Minas Gerais (Fecomércio) revelou que quase sete em cada dez lojas e supermercados da capital foram alvos de criminosos.

A violência no setor disparou em relação ao último balanço. De acordo com a pesquisa, em 2018, 32,4% dos estabelecimentos foram vítimas de crimes, enquanto este ano, já são 68,1%. Os dados foram apresentados, nesta quinta-feira (26), pelo Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios (Sincovaga BH) e representam as maiores taxas de criminalidade dos últimos quatro anos.

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Dentre os itens mais visados pelos criminosos, segundo informou o presidente do sindicato José Luiz de Oliveira, estão bebidas, carnes e produtos de higiene pessoal. "A picanha, por exemplo, é um item caro e fácil de ser repassado", explicou.

O prejuízo financeiro provocado pela violência não foi calculado pela Fecomércio e nem informado pelo sindicato. "Mas calculamos algo em torno dos 3% de todo o faturamento. O número é bastante expressivo", revelou Oliveira. As duas entidades também não apontaram uma possível motivação para o aumento da criminalidade.

Violência

Dos crimes mais recorrentes, assaltos à mão armada dominam. Conforme o estudo, que ouviu 432 empresas do segmento, 61,8% dos comerciantes e 11,3% dos clientes já foram vítimas. Os números, contudo, são refutados tanto pelo Sincovaga quanto pela PM. "A maioria dos crimes é relacionado a furtos a loja", apontou Oliveira. Segundo ele, os mesmos criminosos voltam várias vezes na mesma loja. "É uma repetitividade muito grande. Nós não temos a punição correta". observou. 

O tenente-coronel Wagner Mattos, chefe da assessoria de emprego operacional da Polícia Militar, também discordou dos dados. O militar frisou que os crimes violentos em BH e em Minas estão caindo significativamente desde 2016. Com relação a pesquisa, que mostrou o aumento da violência no comércio alimentício, ele disse que "a percepção pode ter sido desfocada". 

Responsável pelo estudo, a estatística da Fecomércio Letícia Marrara, garante que os dados são baseados nas respostas dos empresários entrevistados. "Não tenho como manipular os números", declarou.

Na pesquisa, o furto aparece em segundo lugar, com 9,6%. Outros crimes, como o recebimento de notas falsas, agressão verbal, estelionato e homofobia representam 5,1% dos casos.

Segurança

Por causa da crescente violência, conforme a pesquisa do Fecomércio, 47% dos comerciários mudaram a rotina nos estabelecimentos. A principal alteração foi tirar produtos do acesso ao público, guardando os objetos em ambientes com trancas ou em outros locais. Este hábito tem sido adotado por 35,5% dos empresários. Além disso, 21,8% dos supermercados ou lojas alteraram o horário de funcionamento. 

Outra mudança feita pelos empresários foi investimento maior em equipamentos de segurança, como circuito interno de TV e alarmes. Dos entrevistados, 70% afirmaram investir até 5% do faturamento em itens para reforçar a segurança.

O tenente-coronel Mattos destaca ainda as ações que a PM tem realizado para diminuir os crimes nos comércios da cidade. "A atividade direta das redes de vizinhos protegidos, posicionamento de viaturas em locais estratégicos e próximos dos comércios, e a implementação das bases de segurança comunitárias, que trouxeram uma grande oportunidade dos comerciantes e da população com a polícia", listou.

A pesquisa foi realizada entre os dias 12 de agosto a 4 de setembro e ouviu 48 estabelecimentos de cada uma das nove regionais da cidade, totalizando 432 empresas do ramo alimentício. Entraram no levantamento padarias, minimercados, açougues e peixarias, hortifrutigranjeiros, hipermercados e supermercados.

Comuns

Para os comerciantes, os crimes ficaram realmente mais comuns. Silvânia de Frietas, de 40 anos, gerente de um mercado no Centro, diz que, rotineiramente, lida com pequenos furtos em sua loja, e que mesmo os seguranças e as câmeras de vigilância não inibem as ações de criminosos.

"É todo dia praticamente. O que mais acontece são furtos de pequenas coisas, como provolone, peças de presunto. Quando acontece a gente aborda a pessoa e chama a polícia por aqui", afirmou.

No quarteirão da rua Santa Catarina, em frente ao Mercado Central, a comerciante Sirlene Gil Viana, de 42 anos, diz que o maior problema para quem tem lojas ali são os arrombamentos. "Durante o dia tem muito furto, mas desde que tivemos a base móvel aqui na rua, diminuiu bastante. O problema é que quando dá meia-noite, o perigo aumenta", disse.

Há quinze anos na região, ela não tem notado crescimento na criminalidade, mas já teve a loja arrombada. "Normalmente (os criminosos) aproveitam a noite, quando não tem polícia aqui para arrombar as lojas, roubar e até revirar as coisas", contou.

Já para o gerente de uma loja de festas Cláudio Manoel, de 50 anos, o número de furtos tem aumentado nas lojas do centro. "Olha, pelo movimento aqui, assaltos são difíceis de acontecer, mas furtos acontecem demais, e tem aumentado", comentou.

Ele vê que o policiamento tem sido melhor há pelo menos um ano, mas acredita que a crise econômica tem influenciado no aumento de furtos. "Eu acho que a crise fez com que esses furtos aumentassem. A gente tem muitos casos de quem leva ou tenta levar alimentos, produtos, é difícil controlar. E nos últimos tempos subiu, mesmo com a polícia estando aqui mais presente", sustentou.