Os vários casos de preconceito presenciados em sala de aula foram o estopim para que um grupo de professores criasse um curso diferente, privilegiando a educação com inclusão social. O resultado da união de esforços foi o curso Transvest, programa de ensino que tem como objetivo preparar transexuais para vestibulares e concursos públicos. As aulas começam em março na capital mineira.

Essa foi a oportunidade encontrada pelo empresário Caco Santos, de 22 anos, para tentar uma vaga em um concurso público, estudando sem se preocupar com os olhares de outros alunos, segundo ele comuns nas escolas regulares. “Acredito que o novo espaço vai proporcionar tranquilidade durante a minha preparação. Não preciso ficar preocupada em explicar o motivo de ser assim ou incomodada com os cochichos durante as aulas”, avalia.

Para Santos, a dificuldade de inserção nos centros de ensino convencionais acaba desestimulando o transexual a buscar melhorar a qualificação profissional. “Sei que na universidade terei que superar barreiras, mas quanto mais eu puder evitar, melhor”.

Foi para evitar “olhares de reprovação” dos colegas que a estudante Larissa Martins, de 26 anos, abandonou vários cursos. “Eles me excluíam dos trabalhos e encontros. Cheguei a pensar em desistir de tudo. O apoio da minha família foi fundamental para que continuasse”, lembra. Atualmente, ela cursa filosofia em uma faculdade privada da capital.

Exclusão

Um dos idealizadores do Transvest, o professor de literatura Eduardo Salabert explica que o programa é um projeto artístico-pedagógico que dá oportunidade para que essas pessoas tenham acesso ao ensino. “Muitas delas são vítimas da exclusão seja pelos colegas de classe ou até pela omissão de alguns educadores que não sabem lidar com a situação”.

“Infelizmente há uma dificuldade das minorias. O que percebemos é que essa barreira acaba dificultando diretamente o progresso da evolução educacional, levando à marginalização”, reforça o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais (ABLGBT), Carlos Magno Fonseca.

Atividades

As aulas do Transvest serão ministradas no Edifício Maleta, no Centro, por professores voluntários. “São de cursinhos renomados e irão ajudar a preparar esses estudantes para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)”, diz Salabert.

Também haverá aulas para quem deseja prestar concurso público ou concluir os estudos. Todo o serviço é gratuito e o material didático será disponibilizado para os estudantes.

“Grande parte dos inscritos não concluiu os ensinos fundamental e médio. Há pessoas que nem são alfabetizadas”, reforça Carolina Sales, professora de português e também idealizadora do projeto.

Tolerância deve ser estimulada em sala de escola regular

Apesar de considerar válida a iniciativa do Transvest, Sandra Bernardes, professora de psicologia da PUC Minas, destaca que a aceitação entre os estudantes deve ser estimulada dentro das escolas regulares. “Não iremos resolver o problema do preconceito isolando esse público. É necessário incentivar a tolerância e debater o assunto sempre que possível”.

Para a especialista, o cursinho poderá ser uma solução momentânea para o processo de exclusão educacional. “O que esse estudante precisa ter em mente é que essa é apenas uma etapa. Na universidade ele será obrigado a lidar com o diferente e encarar isso da melhor forma possível”, observa.

Dificuldades

A professora Carolina Sales reforça que o projeto não estimula o preconceito entre os demais estudantes por ter um público-alvo específico. “Estamos tirando essa limitação que é rotina na sociedade. A dificuldade dos transexuais vai além da sala de aula. Está presente na família, no trabalho, e acaba afetando a autoestima de quem sofre com o preconceito”, diz.

O curso, inclusive, levanta a discussão para que se invista em programas de inclusão educacional também para os variados gêneros sexuais, afirma o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais (ABGT), Carlos Magno Fonseca. “Assim como as mulheres, idosos e negros, os transexuais também precisam de inclusão para que o acesso a políticas públicas não fiquem cada vez mais distantes”.

Acesso

O curso também irá oferecer apoio jurídico aos estudantes e aulas de língua estrangeira. A proposta visa a garantir a eles acesso a serviços aos quais frequentemente não conseguem.

20% dos alunos de cursos regulares não querem colega de classe gay ou transexual, de acordo com a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais

Os interessados em participar do Transvest podem entrar em contato pelo e-mail transvest@outlook.com ou pelo telefone (31) 99922-2666