Voluntários leem para deficientes visuais, numa troca que produz conquistas

Aline Louise - Hoje em Dia
28/06/2015 às 08:33.
Atualizado em 17/11/2021 às 00:40
 (Carlos Henrique - Hoje em Dia)

(Carlos Henrique - Hoje em Dia)

A voz calma, às vezes pausada, narra o texto enquanto ouvidos atentos registram na memória o que os olhos não podem captar. Todos os dias, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte, dezenas de voluntários leem para deficientes visuais, ávidos em aprender. E através dessa troca são construídos sonhos, conquistas.

A oficial judiciária Christiane Maria Moreira, de 35 anos, ouve atenta o que lê a nutricionista Maria Cristina Careli, de 47. Elas brincam com os nomes, que até parecem de uma dupla sertaneja. E de fato, as duas seguem numa parceria afinada. Enquanto Christiane se prepara para outro concurso – ela já foi aprovada em cinco –, Cristina aprende a ter um novo olhar sobre a vida. “A convivência, a história de cada um comove. Eles fazem a gente enxergar muita coisa, por incrível que pareça”.

O que Cristina consegue enxergar através de Christiane é a leveza para encarar a vida, mesmo com todas as adversidades. Bem humorada, ela conta que nasceu com uma doença congênita, a retinose pigmentar. Quando menina, enxergava cerca de 20%, mas sempre soube que mesmo essas imagens turvas iriam desaparecer com o tempo.

Aos 15 anos, perdeu completamente a visão. Praticamente todo seu aprendizado foi guiado por leitores voluntários. Ela se formou em biblioteconomia, fez especialização em administração pública e, em 2005, passou num concurso do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, onde trabalha até hoje. Mas continua estudando, a meta é atingir cargos mais altos.

Sonhos

Masmo objetivo de Sérgio Viana, de 39 anos. O massoterapeuta, que tem glaucoma congênito, ficou definitivamente cego aos 14 anos. Sem orientação e com poucos recursos da família, não frequentou a escola até os 20. Só a partir daí, em contato com a Fundação São Gabriel, foi alfabetizado. E foi só essa vozinha do conhecimento soprar no seu ouvido para ele sonhar alto.

Primeiro, qualificou-se como massoterapeuta, em seguida começou o curso de direito. Junto com a faculdade, prepara-se para concursos públicos. “Adquirir conhecimento nunca é demais, para mim não tem limites”, declara, mirando o “topo” da profissão.

Quem lê para Sérgio a matéria é o administrador André Magalhães, 29 anos, que na verdade estuda junto. Ele também está se preparando para passar por exames. “O Sérgio tem uma visão muito interessante, ele consegue captar a informação de uma maneira diferente. Eu aprendo muito”.

‘Não tenho palavras para externar a beleza desse trabalho’

O juiz aposentado Marino Ferreira Porto, de 77 anos, há dez faz leitura de texto de direito para cegos. Foi a forma que encontrou para se manter em contato com esse universo de conhecimento, que tanto amava. “Na verdade, eles nos ajudam mais do que nós a eles, é muito gratificante”, diz.

A servidora pública Cláudia Regina Fernandes, de 41 anos, é uma das ouvintes do Marino. Ela também nasceu com glaucoma congênito, e ao contrário do Sérgio, sempre teve orientação e apoio dentro da família para superar as dificuldades. “Fui criada com essa consciência de que eu perderia toda visão e tive uma mãe muito sábia, que não fugiu da realidade. Ela nunca me privou de nada, sempre me incentivou”.

Há 24 anos, Cláudia é concursada da prefeitura de Arco, mas continua estudando, com o objetivo de conseguir um cargo melhor. Ao falar sobre o papel da biblioteca e dos voluntários em suas conquistas, ela se emociona: “eu não tenho palavras para externar a beleza desse trabalho. Qualquer palavra não alcançaria o que eu penso, o que eu sinto”.

 

 

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