No ano em que completa 185 anos de vida, a AngloGold Ashanti investe R$ 120 milhões nas operações no Brasil, que incluem dois complexos em Minas Gerais, e não descarta a possibilidade de reabrir a Mina Grande, que encerrou as operações em 1997, em Nova Lima. Para isso, no entanto, a onça do ouro precisa ter uma valorização expressiva. 

Enquanto esse projeto não sai do papel, a companhia coloca em prática um plano de operação remota das máquinas. Além de garantir mais comodidade ao empregado, que não precisará trabalhar no subsolo e poderá comandar os equipamentos por meio de uma tela, o fato de estar em cima da terra aumenta a produtividade, visto que sem o fator insalubridade ele pode trabalhar mais de seis horas por dia. 

Confira a entrevista com o presidente da mineradora, Camilo Farace.

Apesar do ano de crise, quanto a empresa pretende investir no país? Como será feito o investimento?
R$ 120 milhões. Quando falamos em investimento em mineração estamos falando de um processo contínuo. Não temos uma nova expansão de volume da mina programada para este ano. Temos investimentos contínuos principalmente para exploração, que é o que dá vida a uma empresa de mineração. Portanto, dentro do montante temos gastos com exploração e desenvolvimento de mina, com a característica majoritária de investimentos em mineração subterrânea, para poder chegar ao plano de produção. Os investimentos são, em resumo, em exploração, em substituição de equipamentos, na ampliação de frotas de equipamento para melhoria do processo produtivo e em inovação.

Quantas operações a Angolgold Ashanti tem no Brasil?
São três operações no Brasil, chamados de complexos. O maior, Cuiabá/Lamego, está em Sabará, com 55% da capacidade total do Brasil. Temos, também no Estado, a mineração Córrego do Sítio, em Santa Barbara, e em Goiás temos a operação Serra Grande, que fica em Crixás, próximo a Goiânia. 

Como será a divisão do investimento por complexo?
Ele seguirá proporcionalmente à produção. Cuiabá/Lamego é a mais profunda do Brasil e a que demanda a maior quantidade de investimentos. A divisão é equivalente à produção de ouro nas três. 

Qual a produção de ouro nos três complexos?
No ano passado, nós produzimos 16 toneladas de ouro nas três, com participação de 55% na operação Lamego/Cuiabá e os demais 45% divididos em 22,5% em cada um das outras duas operações, Córrego do Sítio e Crixás. Dessa forma, 55% do investimento vai para Cuiabá/Lamego.

O investimento gera emprego, aumenta a vida útil da mina?
O investimento atua na sequência de produção da mina, ampliando a capacidade produtiva em relação à longevidade, à vida útil da mina. Ele demanda contingente de pessoas específicas para fazer essas atividades de desenvolvimento. Em função do fato da operação estar se aprofundando, existe demanda de crescimento de pessoas dentro do processo produtivo. Não é algo muito elevado nesse período, mas existe.

Quantos empregados existem hoje? E quantos devem ser contratados?
Hoje, a AngloGold Ashanti possui 7 mil empregados, entre próprios e contratados. O volume de pessoas a serem acrescidas deve ser pouco expressiva. Uma empresa tradicional, convencional, pode até fazer prospecção de novos produtos e projetos, mas não necessariamente na mineração. Se você tem uma fábrica de parafuso, ela roda com custo operacional e custo de replacement. No nosso caso, tem que investir pesado em exploração, em perfuração. Tem que adicionar recursos, tem que converter recurso em reserva para que tenha capacidade de continuidade no negócio. E todo esse valor é considerado investimento. A AngloGold Ashanti é uma das empresas que mais investe em exploração e em sondagem.

Sondagem é para saber onde mais tem ouro?
Sim. Fazemos muita sondagem para conhecer a capacidade efetiva de onde vamos minerar. Temos que fazer o processo de planejamento de lavra e execução da lavra, que vai dar capacidade operacional da mina. Sempre lembrando que no subsolo é muito expressivo o valor de sondagem. Para se ter uma ideia, fizemos recentemente dois furos de sondagem na mina Cuiabá que são reconhecidos hoje como sendo os mais profundos feitos em solo nacional, excluindo os furos da Petrobras em áreas marítimas.

E qual foi a conclusão a que a equipe chegou?
Chegamos à conclusão de que é possível continuar a minerar a mina, aumentando a vida útil para mais de 2030. 

Qual foi o investimento neles?
Cada furo desses custou US$ 1 milhão. Imagina um furo que não é retilíneo. A rocha tem resistência, tem que analisar a capacidade da rocha e da sonda. A perfuração tem que ser curva para atingir aquele exato local que você almeja. Se atingir outro local, pode ser desperdício de dinheiro. É um risco alto.

E tem equipamento aqui no Brasil?
Os equipamentos são canadenses, não existe tecnologia no Brasil que produza esse tipo de trabalho. Tanto que trouxemos esses equipamentos do Canadá. As pessoas que operam essas máquinas também são de lá.

Onde o minério é beneficiado?
Em Sabará e Nova Lima, onde nós temos o ciclo produtivo da mineração completa, da extração até o produto em definitivo, que é o ouro em barra. 

E quanto a empresa paga de Cfem para Santa Bárbara, Nova Lima e Sabará?
Em 2018, o valor chegou a R$ 25,85 milhões. Nossa carga tributária total é de R$ 400 milhões

A Mina Grande, em Nova Lima, foi fechada em 1997. Muito se falou no passado sobre a reabertura da mina. É possível? 
É possível reativar a Mina Grande e com certeza lá tem potencial para extração. O fato é que, dadas as circunstâncias, para que ela volte a operar teríamos que ter um preço do ouro acima de US$ 2 mil a onça, número que hoje não temos nem perspectiva. Hoje, o preço é US$ 1.300, aproximadamente. A valorização teria que ser altíssima.

Por que o investimento na reabertura é tão alto? 
A produção teria que ser feita a partir de Raposos, no extremo oposto da mina. Ao demandar um novo acesso, isso custaria muito. Mas a empresa mantém a possibilidade de, no futuro, avaliar essa obra. 

O que mudou desde quando a AngloGold Ashanti ainda explorava Mina Grande?
No passado, o setor usava carrinhos. Hoje, são caminhões de 60 toneladas e equipamentos de grande porte chamados de jumbo, que são operados por uma espécie de controle remoto, de operação assistida, do subsolo. A meta é de no final de 2020 conseguir operar esses equipamentos de forma remota, de fora da mina. A operação da máquina será feita de uma sala climatizada, fora do subsolo.

Há redução dos postos de trabalho?
Não, porque continua sendo necessário um empregado para uma máquina.

Qual o ganho da empresa com a mudança? 
A empresa e o empregado ganham com o fim da insalubridade. O empregado passa a trabalhar em condição mais segura e mais ergonômica. Hoje, no Brasil, existem restrições legais para trabalhos no subsolo. Aqui, o trabalhador só pode trabalhar seis horas debaixo da terra. Sem o fator da insalubridade, ele pode trabalhar mais horas. Em outros países é diferente. Na Austrália, por exemplo, o trabalhador pode ficar 12 horas debaixo da terra. E a Anglogold tem minas em iguais condições aqui e na Austrália, com legislações diferentes. O custo Brasil é muito pesado por uma legislação antiga que não acompanhou a evolução tecnológica que as empresas de ponta implementaram. Quando compramos equipamentos, embora o custo seja o mesmo, a produtividade é muito menor no Brasil. Operando de forma remota, você otimiza a capacidade produtiva.