Os botecos traduzem a essência da alma mineira. Espaços de interação onde alegria, tristeza, namoro, reunião familiar ou profissional convivem harmoniosamente e refletem o costume dos mineiros de se reunirem em torno de uma mesa para compartilhar emoções.

Acima de tudo, os botecos são locais acessíveis a todos os públicos. Seu caráter democrático permitiu a construção de uma das nossas mais singulares representações de identidade cultural.

O mineiro tem, realmente, um caso de amor com o boteco. Não é à toa que o jornal americano The New York Times se referiu, em reportagem sobre a nossa capital, Belo Horizonte, como a cidade onde “o mundo é um bar”.

Bar é tira-gosto, bebida gelada, bate-papo com amigos e diversão. Boteco é isso e muito mais. O boteco é um bar em estado puro, o que o torna ainda mais genuíno dentro do cenário nacional

Ele representa a autenticidade mineira no seu modo descontraído de ser, no serviço simplificado e, sobretudo, na hospitalidade que nos caracteriza. 

Múltiplas funções sociais convergem nos botecos, transportando-os para além de locais aprazíveis destinados a saciar a fome e a sede. São verdadeiros espaços públicos de intercâmbio, pontos de encontro e reunião social, onde a degustação do alimento cumpre mais do que a sua função nutricional e sensorial. 

A culinária mineira, apresentada em petiscos de boteco, conta uma história carregada de significados culturais, reconhecida pelos mineiros e aprendida pelos visitantes.

No mundo contemporâneo, prover alimentação não é mais uma questão apenas de servir refeições, mas sim um processo holístico de conectar alimentos à cultura local e global. Por isso, quem nos visita leva muito de Minas não só no alimento que consome, mas também nas experiências gastronômicas que vivencia.

Hoje temos em Minas uma gastronomia de vanguarda, mas que continua ligada à fartura e à família, ao aconchego e ao conforto. A coexistência da cozinha mineira tradicional e moderna, aparentemente paradoxal, longe de descaracterizá-las, mostra-nos vestígios de uma interessante troca cultural.

Vivemos atualmente um verdadeiro processo de simbiose gastronômica, porquanto a culinária mineira, ao mesmo tempo em que se apresenta permeável à inovação, aos novos produtos e aos novos hábitos, mantém-se íntegra e indivisível, numa evidente manifestação de resistência histórica. Nesse contexto, a comida mineira de raiz é a referência máxima para um movimento criativo emergente. 

Segundo o filósofo grego Epicuro, o prazer é muito maior quando compartilhado. Deleite-se com a diversidade de botecos que Minas oferece e aproveite os momentos de descontração e alegria proporcionados pelo encontro com os amigos.

Não tenha pressa. Deguste cada petisco, saboreie sua bebida e desfrute da boa prosa com a tranquilidade característica destes ambientes sociais. Segundo um livre pensador, possivelmente mineiro, a pressa é inimiga da refeição.