A indústria cultural é um dos setores mais impactados economicamente pelas restrições sociais que a pandemia do novo coronavírus impôs mundo afora. No Brasil, diante da necessidade de remarcação e cancelamento de eventos artísticos, e sem a previsão de quando a situação será normalizada, a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape) estabeleceu, em Brasília, junto com a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça, a Associação Nacional do Ministério Público do Consumidor (Mpcon) e o Ministério Público do Distrito Federal, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), para evitar a quebra do setor.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) editou a Medida Provisória (MP) 948 para regulamentar o reembolso de eventos culturais, permitindo às empresas que, em vez de reembolsarem o valor dos ingressos, assegurem a remarcação do evento cancelado, a disponibilização de crédito para uso ou abatimento na compra de outros serviços. A MP tem validade imediata pelos próximos dois meses, e precisa de posterior aprovação do Congresso Nacional.

Em Minas Gerais, foi criada há três meses a Associação Mineira de Eventos e Entretenimento (Amee), que enfrenta logo de cara um desafio colossal: tentar unir esforços entre 1.254 empresas afetadas, a fim de diminuir as perdas do setor, que segundo a associação responde por 13% do Produto Interno Bruto do Brasil.

Em função disso, a Amee encaminhou cartas para as esferas municipal, estadual e federal, ressaltando a importância do setor e solicitando algumas medidas para minimizar os impactos para a área e seu empregadores. Sobre o assunto, conversamo com o presidente da entidade, Rodrigo Marques.

Vocês entregaram uma carta ao governador, com relação às medidas de impacto para o setor. Há vários setores com problemas, como podemos mensurar a dimensão desse estrago?

O setor de entretenimento parou. Muitos estão funcionando mais ou menos, os restaurantes estão se reinventando, entregando em domicílio, por exemplo. Mas o setor de eventos não tem como se reinventar. A aglomeração de pessoas não é permitida, e também não achamos que seja consciente neste momento. Devemos ter hoje, mais ou menos, umas 3 milhões de pessoas da nossa área sem trabalhar somente no estado de Minas Gerais.

O que vocês solicitam por parte do poder público nessa cartas, que possa minimizar os prejuízos?

De imediato o que poderia amenizar e frear o desemprego seria uma linha de crédito que chegasse ao nosso setor, e a longo prazo, pós-coronavírus, uma desburocratização da Lei de Incentivo à Cultura. Sugerimos também,a isenção de taxa de análise de vistoria do Corpo de Bombeiros, para que o mercado dê uma reagida, e a exclusão da contrapartida que vai para o Fundo Estadual de Cultura, que vem inibindo as empresas de patrocinarem.

Há alguma alternativa paliativa por enquanto? Temos visto muitos eventos transmitidos pela internet, nas chamadas lives, que reúnem milhões de espectadores. Até que ponto é possível contornar o isolamento com essa estratégia?

As lives funcionam para os grandes artistas, com visibilidade e patrocínio. Mas a cadeia do entretenimento é vasta. Falamos do artista, do produtor, do montador de palco, do locador de som, do bilheteiro, do porteiro, da recepcionista. Com as lives está surgindo um mercado novo no entretenimento, mas ainda restrito aos grandes artistas. Atinge uma faixa do setor, mas a grande faixa está parada, não tem como se reinventar.

Como você vê o acordo firmado entre a Abrepe e representantes dos direitos do consumidor. Qual eficácia para minimizar os efeitos da devolução do dinheiro dos ingressos?

Esse é um ponto crucial para o produtor. Nós não estamos cancelando eventos porque queremos, estamos impedidos de realizar esses eventos. Essa devolução de imediato do dinheiro causaria uma quebradeira geral no setor. O presidente (Jair Bolsonaro) sancionou a MP tratando da devolução, nos dando até 12 meses de prazo, o que vai ajudar muito.

Quais são as perspectivas para o fim da pandemia? E em relação à receptividade do público, de voltar a se aglomerar, após esse trauma pelo qual estamos passando?

Hoje essa é a maior das nossas preocupações: como as pessoas verão as aglomerações e se vão querer comparecer aos eventos. Não temos ainda nenhum histórico de outros países que tenham retomado esses eventos. Na China isso não ocorreu ainda, então não sabemos qual é a reação das pessoas. Não sabemos tampouco se vamos voltar em maio, junho, julho, agosto ou quando será. Não temos essa data. Só temos uma certeza. Seremos um dos últimos, porque o que prevê a aglomeração de pessoas com certeza será o último passo.

É possível mensurar esses prejuízos em termos financeiros caso não haja nenhuma medida do poder público?

Estamos falando de um faturamento anual de R$ 90 bilhões ao ano, então o impacto anual será na casa dos bilhões de reais. Todos estão tendo prejuízos. Querendo ou não, o custo de mídia é muito caro. O planejamento de um evento é muito caro. Então, mesmo no caso do evento remarcado, vai ter todo esse custo lá na frente e você não consegue agregar no valor do ingresso. Todos adiamentos e cancelamentos trazem um prejuízo imenso. Somente para esse período de 40 dias, o impacto da minha empresa é de aproximadamente R$ 300 mil, e ainda não sabemos quando vamos retornar.

Além do apelo ao governo estadual, há algum outro apelo?

Também à prefeitura. O mercado de eventos é 60% informal. Estamos parados há 40 dias. As pessoas não têm dinheiro, alimento. Há várias campanhas para arrecadar cesta básica, infelizmente isso ainda é pouco. Então pedimos uma ajuda à prefeitura para que doasse uma cesta básica para esse pessoal, com mais um kit de higiene, que estão passando realmente necessidade.

Na falta da realização de eventos, o que tem sido feito pelos promotores de eventos?

Estamos procurando nos capacitar, para sairmos mais fortes lá na frente. Tivemos uma palestra de planejamento financeiro, com estudos, distribuição de planilha para todos os associados. Assim, quando retornarmos lá na frente, teremos mais força como empreendedores. Teremos mais uma palestra para falar da área jurídica. A Amee vem buscando trazer motivação e capacitando seus associados. Nós que trabalhamos com eventos vendemos alegria. E no momento o que estamos precisando é dessa alegria nos contagiar.