Wagner Tiso acorda tarde, avisa a produtora. Não se trata de força de expressão. Lá pelas 14h, 15h, o compositor mineiro levanta da cama, após trabalhar intensamente durante toda noite e madrugada, compondo e organizando o próprio material para, futuramente, lançar um songbook.

A pandemia o deixou “preso” em casa, não colocando os pés depois da porta em nenhum momento, num ano em que preparava uma turnê especial comemorativa dos 60 anos de carreira. Nesta entrevista ao Hoje em Dia, ele fala sobre alguns projetos, como o de tocar com jovens músicos de Minas.

E relembra momentos marcantes da trajetória, especialmente ao lado de Milton Nascimento, que conheceu vendo-o na varanda de casa, em Três Pontas, ainda menino, com uma gaita entre os dois joelhos e um violão sob a perna. As carreiras deles se entrelaçariam por várias décadas.

Com aniversário de 75 anos em dezembro, haverá uma comemoração especial para marcar esta data?
Normalmente haveria, mas com este negócio de pandemia não tem como. Está todo mundo recolhido. Tínhamos previsto uma turnê especial neste segundo semestre, em razão dos 60 anos de carreira (celebrados no ano passado), mas não rolou. Eu não saio de casa. No máximo, eu abro a porta para pegar as compras de remédios e supermercado. Pelo menos, pela manhã, quando abro a janela que dá para o lado do Cristo (Redentor), o sol bate legal aqui. Então fico tomando sol na janela.

E você tem aproveitado este momento de recolhimento para compor?
Eu tenho buscado músicas minhas, feitas há muito tempo, e escrevendo-as no computador. A ideia é fazer uma seleção de músicas, tipo um songbook. Estou dividindo o trabalho por partes. Primeiro, fiz só com as músicas de choro. Agora, as valsas. Também tenho feito músicas novas. Já estou com quatro ou cinco prontas.

Você tinha um projeto de trabalhar com músicos jovens mineiros. Você pretende dar prosseguimento assim que a pandemia permitir?
O projeto está de pé, mas vamos ter que esperar um pouco. Por enquanto, estamos só nos comunicando, via telefone e computador. Eu pretendo sim fazer uma seleção de jovens cantores e instrumentistas. Seria apenas com pessoal de Minas, porque o manancial já é enorme. Só lá na minha terra, no sul, tem muita gente jovem e de qualidade. Minas é pródigo, neste sentido. Mas antes teria que ir a Belo Horizonte e visitar algumas pessoas. Iria começar pela Débora Maré, que se apresenta numa casa no Nova Suíssa (Bentealtas Musical Espaço Cultural), do Cid Ornelas. De lá iria seguir.

E o Clubinho da Esquina?
Continua firme. Os filhos e sobrinhos do pessoal (do Clube da Esquina) são supertalentosos e vamos agregar outras pessoas. A ideia é fazer shows com cada um deles e, ao final, reunir todo mundo num grande espetáculo no Palácio das Artes.

E por falar em jovens, você começou muito cedo a carreira musical. Aos 11 anos, já participava do grupo Luar de Prata, em Três Pontas. Com uma família formada majoritariamente por músicos, a impressão que dá é que você não teve muita alternativa a não ser seguir este caminho. É verdade?
Antes de entrar (no grupo), eu tocava acordeon na Rádio Clube de Três Pontas, acompanhando os calouros de um programa. Eu tinha 9 anos. Com 11, após ficar amigo do Bituca, que morava praticamente em frente à minha casa, começamos a montar grupos. O primeiro foi o Luar de Prata. Depois, quando me mudei para Alfenas e o Bituca foi morar comigo, fizemos os Ws Boys. Por incrível que pareça, todos tinham nomes começados por W. Todos muito bons músicos. No caso do Bituca, tivemos que inverter o M de Milton para ficar Wilton. De lá fui para Belo Horizonte, com 15, 16 anos, e o Bituca foi em seguida, com 18, 19. Aí começou uma outra história.

WAGNER


Você se lembra do dia em que conheceu Milton Nascimento? O primeiro contato foi na rua, jogando bola, ou soltando papagaio?
Bituca era ruim de bola e papagaio. O negócio dele sempre foi música. Ainda menino, ele sentava no alpendre da casa, de frente onde hoje tem um museu, e colocava uma gaita entre os dois joelhos e um violão embaixo da perna. Ele cantava e acompanhava ao mesmo tempo. Achava aquilo muito engraçado. Eu, na minha varanda, pegava o acordeon e tocava. Foi assim que resolvemos fazer um grupo. Começamos aí, com eu olhando para ele tocando na varanda.

Tiso e Milton Nascimento são amigos de infância e percorreram juntos uma primeira parte da trajetória na música, em grupos como Luar de Prata e Ws Boys e no movimento do Clube da Esquina

O Milton acabou se tornando um membro da família, seguindo com vocês para Alfenas.
Ele não pôde ir (para Alfenas) de cara, porque teve que servir o Exército antes. Depois ele foi direto para Alfenas. Eu já tinha o grupo, os Ws Boys, e Milton entrou como crooner e tocando xilofone.

Vocês foram muito inspirados pela música americana, especialmente pelo grupo The Platters. Como este material chegava até vocês na época?
Em Três Pontas havia um cinema de alta qualidade, o Trespontano. Um empresário de lá era fã de cinema, tinha dinheiro e fez uma sala maravilhosa, com projeção em Cinemascope. Víamos os filmes e ficávamos encantados com as trilhas sonoras. A gente tomou paixão por aquelas músicas lindas, orquestradas, com nomes como Nat King Cole, Doris Day e Ray Charles. Depois fizemos um quarteto vocal inspirado no The Platters. A gente se apresentava vocalizando, a quatro vozes. O Bituca tocava violão também, e eu acordeon.

Em outro grupo, já em BH, vocês ensaiavam na casa do Marilton Borges, o que os levou ao Clube da Esquina. Como foi esta história?

Era um quarteto vocal e ensaiávamos na casa do Marilton, o mais velho dos irmãos Borges. Era no edifício Levy, no Centro, e tocávamos no quarto dele. Lô era ainda pequenininho, mas já gostava de ficar mexendo no violão. A partir daí foi surgindo o Clube da Esquina aos poucos. Eu vim para o Rio de Janeiro em seguida, para trabalhar nas boates daqui, tocando com Cauby Peixoto e fazendo arranjos de orquestra de corda para a Maysa. Mas as parcerias com o Milton continuaram. Eles estava sempre aqui e eu estava sempre lá. Mas aí ele deu super certo cantando “Travessia” no II Festival Internacional da Canção, em 1967, e acabou ficando. Ele foi trazendo um a um da turma que ele gostava de Minas. E criamos o Som Imaginário para ser um porto seguro, para acompanhar este pessoal e o próprio Bituca.

Tiso também foi um compositor assíduo de trilhas sonoras para cinema, trabalhando principalmente com Walter Carvalho Jr. em filmes como “A Lira do Delírio”, “Inocência”, “Ele, o Boto”, “A Ostra e o Vento”

O Paulo Moura foi uma importante referência para você?
Muita mesmo! Ele foi meu grande amigo e grande mestre. Eu tocava órgão na orquestra de baile do Waldir Calmon no Canecão e, no intervalo, eu saía para tomar um cafezinho, no boteco em frente. Um rapaz bonito e simpático me abordou um dia, perguntando se eu era o pianista de Minas que harmonizava bem. Era o Paulo Moura, que explicou que o pianista da banda dele tinha ido estudar no Rio de Janeiro e que gostaria de fazer um teste comigo na casa dele, para ver se poderia substituí-lo. Marcou o horário de 11h no dia seguinte. Eu cheguei às 8h (risos). De cara eu o ajudei a fazer uma produção de arranjos e nos tornamos grandes amigos. Ele gostou muito de mim e cismou que eu tinha que fazer arranjo para orquestra, dando-me várias dicas. Foi ele quem me forçou a fazer o arranjo de orquestra para a Maysa. Viajamos o Brasil todo, com o Paulo tocando sax e eu, piano.

Voltando ao Som Imaginário: no grupo você experimentou pela primeira vez esta mescla de jazz, rock progressivo e MPB, algo que marcaria definitivamente a sua carreira.
Embora eu gostasse muito de jazz e bossa nova, o rock progressivo me encantou também. Com este grupo, acompanhamos o início da carreira do Milton e fizemos alguns discos independentes.

Naquele período, você deu início a outra vertente importante de seu trabalho, como compositor de trilha sonora de filmes. Como é fazer música para cinema?
Depois que voltei dos Estados Unidos, onde fui trabalhar com alguns músicos, o Som Imaginário já não existia mais. Fiz alguns discos meus e o pessoal começou a reparar que a minha música era muito visual. Sempre quando compunha, eu imaginava uma cena. A partir daí os diretores foram me chamando. Fiz quase 40 trilhas de filmes.

Apesar de ter composto para vários longas de Walter Lima Jr, o trabalho mais marcante talvez tenha sido em “Jango”, em que você fez uma melodia que, mais tarde, Milton pôs as letras e, com o título “Coração de Estudante”, se tornaria o hino das Diretas Já.
Eu sempre fui bastante ativo na coisa política. Em princípio, a música foi usada para acompanhar o enterro do Tancredo (Neves, que morreu em 1985 antes de tomar posse como presidente da República), mas depois foi apropriada para temas políticos. Durante as Diretas Já, palavra que foi criada por Henfil, meu grande amigo, ela ganhou vida própria.