A Forno de Minas completará 30 anos de existência em 2020 como uma das mais bem-sucedidas produtoras de um dos símbolos de Minas Gerais: o pão de queijo. Talvez a marca mais conhecida do produto que exporta para 16 países a mistura de queijo, polvilho, leite, ovos, sal e manteiga. 

Na fábrica localizada desde o início dos anos 90 em Contagem, a sócia-fundadora Hélida Mendonça recebeu a reportagem do Hoje em Dia e contou como, com a mãe Dona Dalva e o irmão Helder, criou a empresa e atravessaram momentos como a venda e a reaquisição da marca, que em 2018 faturou R$ 388 milhões, produzindo 1.800 toneladas da iguaria por mês e empregando 1.200 pessoas diretamente.

Como foi a infância na sua família e a mudança do interior para a capital mineira?

As famílias do meu pai e da minha mãe são de fazendeiros. Quando minha mãe tinha dez anos de casada, ela quis mudar para BH porque mudar para a capital era uma forma de oferecer um ensino melhor para os filhos. Minha mãe cobrava duas coisas da gente. Podíamos formar no que quiséssemos, mas tínhamos que ter curso superior e desde nova ela falava que tínhamos que estudar inglês. Meu pai continuou na fazenda em João Pinheiro. Com 31 anos de idade, ela terminou o ginásio e fez um curso técnico de contabilidade, estudando à noite. Um ano depois de nos mudarmos, meu pai, com 37 anos, morreu em um acidente de carro, e minha mãe passou a trabalhar como corretora de imóveis. Não tinha férias, saía de manhã e voltava à noite, de domingo a domingo. E assim foi por 15 anos. Eu tinha 12 anos, minha irmã 11, meu irmão 8 e a caçula 4. Então eu fazia esse papel de buscar minha irmã no colégio, levar no balé, fazia o que podia para ajudar. E isso me fez amadurecer muito.

Como começa a história dessa empresa familiar?

Na verdade, a ideia foi do meu irmão, Helder. Ele fez administração, ficou um ano morando nos Estados Unidos, e ficou apaixonado pelo conceito de comida congelada. Minha mãe já fazia pão de queijo congelado no tabuleiro. Daí alugamos uma sala em um shopping na avenida Nossa senhora do Carmo, e começamos a fazer pão de queijo lá. Alugamos uma Fiorino, uma máquina, um freezer horizontal. Quando fizemos as primeiras massas, apresentamos para o Carrefour, que ainda não tinha esse tipo de produtos. Daí crescemos e nos mudamos para Contagem, por uma questão de logística, já que nossos fornecedores ficavam na Ceasa, e aqui (Contagem) também é bom para escoar a produção por estar perto da BR (rodovia).

Quais foram os desafios de levar esse gosto de comida caseira para escala industrial?

O cuidado vai desde a seleção pelos melhores ingredientes, quando aumentamos a produção tínhamos um gargalo que eram as variáveis dos queijos, vinha queijo fresco, meia cura, curado, com sal, salgado, de todos os tipos, a gente não conseguia manter um padrão. É impossível manter um processo com a matéria prima variando. Chegava a época de chuva e não conseguíamos comprar queijo curado, só vinha queijo fresco. Então arrendamos laticínios em Conceição do Pará e começamos a fazer nosso queijo. Desenvolvemos um queijo com leite pasteurizado que tem os mesmos dias de maturação, mesmo sabor, mesma textura, próprio para o pão de queijo. E depois fomos nos adaptando com os equipamentos, que tivemos que criar. Meu irmão sempre foi o “professor Pardal” da Forno de Minas. A maioria dos equipamentos foi criada aqui, mas nunca patenteamos, não era nossa preocupação, que era resolver a questão do produto. Começamos congelando no freezer, gastávamos 12 horas, depois com nitrogênio e agora com amônia. Quanto mais rápido o congelamento, mais você preserva as características do produto.<EM>

Quais são os caminhos para um produto tão característico de Minas Gerais ganhar o Brasil e o mundo?

Quando começamos, o desafio era vender pão de queijo para as mineiras, porque toda mineira fazia pão de queijo, fosse a mãe, a tia, a prima, a avó. Em um segundo momento queríamos que o Brasil todo conhecesse o produto, o que só ocorria em MG, SP e RJ. Na realidade, ainda temos muito mercado, principalmente nas regiões Norte e o Nordeste do Brasil, onde há muitas oportunidades. Nossa visão é de que o pão de queijo seja um produto conhecido mundialmente, onde você chegar. Em cada região é consumido em um horário, em determinado momento, com acompanhamentos diferentes. Por exemplo na Inglaterra, vai com o chá das 5. No Rio eles consomem muito o coquetel, menorzinho, em São Paulo fizemos um para a linha do metrô que é menor ainda, parece uma pipoquinha. Isso é um grande desafio, adaptar e adequar com o gosto das pessoas. Por exemplo, na Ásia o pão de queijo tem 40% a menos de sal, eles preferem um produto que para nós é adocicado. É questão de paladar. Mas é difícil conhecer alguém que fala “eu não gosto de pão de queijo”. É um produto que agrada crianças, idosos, natural, não é frito. Saudável. As pessoas não sabem disso, mas todo pão de queijo é sem glúten porque não é feito com farinha de trigo, é feito de polvilho.

E como é levar o ambiente familiar para dentro da empresa?

A família para mim é a base de tudo. Quando veio essa ideia de criarmos a empresa da família, isso pra mim foi um divisor de águas. Meu sonho desde novinha era ser psicóloga, de trabalhar com adolescentes. Eu não deixaria de fazer o que eu estudei, trocar o certo pelo duvidoso, se não fosse por ser com minha mãe e meu irmão. Sempre tivemos cuidado em preservar nosso relacionamento em família e de preservar o trabalho como negócio. Sempre tivemos isso uma divisão de trabalho. Dona Dalva cuida da qualidade, ela é o produto, meu irmão sempre olhou a questão do negócio, dos investimentos, dos empreendimentos, das inovações e equipamentos, e eu sempre cuidei da área de pessoas, do setor administrativo e de o marketing. Cada um tem o seu papel. E acredito haver um preconceito com empresas familiares, como se não fosse algo profissional, e a vida inteira sempre pensamos em uma empresa da forma mais profissionalizada possível, com processos, regras, inovação e desenvolvimento de produtos, pesquisa de mercado. Então acho que começamos com dois grandes desafios, o primeiro por ser empresa familiar. E quando começamos a crescer um pouco mais eu comecei a notar que empresa mineira, as pessoas acham que por ser mineiro você não pode ter um negócio nacional, restrito a Rio e São Paulo, ou mundial.

Uma parte da história da Forno de Minas passou pela venda da marca para empresários americanos em 1999, e que depois voltou para vocês em 2009. Como foi esse processo?

Divido esses trinta anos em três fases. Nos primeiros dez, fomos para o mercado com um produto totalmente artesanal, romper as barreiras de Minas, entender as diferenças de cultura, trabalhar os mercados de um outros estados e outros países. Aí veio a segunda fase, quando vendemos a empresa em 1999 porque era uma proposta irrecusável. Minha mãe fala que a gente não vendeu, nós fomos comprados. Continuamos com a nossa fábrica de laticínios e fizemos um contrato de fornecimento de queijo para eles. Mas eles foram diminuindo a quantidade de queijo que usavam. Começamos a exportar queijo, tivemos a certificação FDA (a Forno de Minas foi aprovada em para exportação pela agência Food and Drug Administration, dos Estados Unidos), investimos em outros produtos e setores. Com a crise mundial de 2008 veio a terceira fase, os norte-americanos decidiram fechar aqui porque a matriz foi impactada. Ligaram para o Helder informando que encerrariam a operação no Brasil e perguntaram se tínhamos interesse em recomprar a fábrica e a marca. Fecharam, mandaram todo mundo embora, deixaram muitos fornecedores e clientes sem produto. Nossa fábrica de laticínios não sentiu muito na época porque já estávamos vendendo outros tipos de queijo, ou estaríamos em apuros. Quando a reassumimos, tivemos problemas com clientes, que perderam a confiança na marca. Recuperar esses clientes foi mais difícil do que o começo, também porque a marca tinha perdido muito na qualidade da receita original. O esforço para reconquistar é maior do que para conquistar.

E de que forma o cenário econômico interfere na empresa?

A empresa sempre sentiu esses momentos, mas nunca desistimos. Às vezes somos pegos de surpresa. No ano passado, por exemplo, com aquela greve dos caminhoneiros em maio, quando chegou o mês de julho já víamos que o ano seria um desastre. Aquilo afetou tudo, ficamos dez dias sem vender, não tivemos programa de participação no resultado, de distribuição de lucro, o que dificulta manter nossos 1.200 colaboradores diretos motivados. Precisamos ter mais força ainda quando o mercado está em crise. Agora eu acho que o pior passou. Quem é empreendedor tem que ser otimista, por pior que passe os momentos, você tem que olhar lá na frente, que hoje é melhor do que ontem.