Muitos estão sozinhos em casa, com dificuldade em sair até mesmo para cuidar da saúde. Outros são vítimas de negligência e, não raro, violência doméstica. A realidade comum a vários idosos no país foi agravada pela Covid-19, doença que coloca quem tem mais de 60 anos no grupo de risco. Porém, em meio ao alerta, o cenário atual deve motivar as autoridades a ter um olhar mais atento às pessoas desta faixa etária. A herança positiva é destacada pelo presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, regional Minas, Marco Túlio Cintra. Futuro vice-presidente nacional da entidade, ele entrou na universidade pensando ser pediatra e se formou nutrindo grande paixão pela geriatria. Nessa entrevista, comenta os reflexos da pandemia na vida dos idosos.

O senhor acredita que a alta letalidade do novo coronavírus entre os idosos despertará uma maior consciência sobre os cuidados com essa população?
Acredito que muita coisa irá mudar na sociedade, como legado desta pandemia. Uma possibilidade, que já vinha acontecendo, é um maior uso da tecnologia para o cuidado dessa faixa de público. Ao contrário da época dos nossos avós, que tiveram muitos filhos, a cada geração que se passa as pessoas têm menos filhos e, consequentemente, menos gente para cuidar delas quando estiveram idosas. No meu caso, por exemplo, minha avó teve seis filhos, minha mãe dois, e eu, um. Isso faz com que muitas pessoas envelheçam sem ter quem cuide deles. É o que a gente chama de insuficiência familiar. Nesse sentido, a tecnologia pode ajudar muito, como avisar o horário de um medicamento, um aplicativo para a entrega de alimento e remédio em casa, um dispositivo para avisar um familiar sobre uma queda. Pode ser que essa pandemia se torne um estímulo a mais para o uso desses dispositivos, porque, de uma hora para outra, os idosos ficaram presos dentro de casa, muitas vezes sem ter alguém para comprar as coisas ou retirar dinheiro no banco.

Ao contrário da época dos nossos avós, que tiveram muitos filhos, a cada geração que passa as pessoas têm menos filhos e, consequentemente, menos gente para cuidar delas quando estiveram idosas

Em relação às políticas públicas, o que pode ser feito para a melhoria na qualidade de vida dos idosos?
Uma das heranças desta pandemia foi a necessidade de as autoridades olharem para as Instituições de Longa Permanência para Idosos. Elas são conhecidas como abrigo ou asilo, mas o nome técnico é Instituição de Longa Permanência para Idosos. Se você analisar os óbitos que ocorreram no mundo, de 40% a 80% aconteceram dentro destas instituições, porque nelas se aglomeram os idosos mais debilitados. Durante a pandemia, foi a primeira vez que olharam para estas instituições, que são, em sua maioria, privadas. Várias cidades tiveram que adotar um sistema de monitoramento desses idosos. Agora sabem que elas existem e precisam de apoio, pois lá tem a população de maior risco, sob qualquer ponto de vista, seja pandemia, surto ou infecções. Lá, está a população que tem maiores complicações de saúde e que custa caro para o sistema público quando vai para um hospital. O que não vejo muito ainda é a preocupação com o idoso que mora sozinho em casa.

Temos visto muitos idosos fazendo compras e andando pelo bairro durante a pandemia. Como o senhor avalia isso?
Se é idoso independente, autônomo, aquele que vai a um banco e faz as compras sozinho, é um marcador de boa saúde. Mas, se não e ele mora sozinho, especialmente agora, acaba virando um problema, pois não tem quem irá fazer por ele. Em alguns países do mundo, o governo assumiu a responsabilidade de fazer as entregas em casa. No Brasil, ou eles continuam a sair de casa sozinhos ou têm que contar com rede de apoio de vizinhos. Não houve um olhar do sistema público para este grupo. A exposição deles é enorme. E o que falei sobre a tecnologia serve para este caso. Mas uma nova tecnologia demora um tempo para ser difundida, sendo primeiramente adquirida pelos mais jovens para, depois, chegar aos idosos. Então, a pandemia pegou boa parte desses idosos com as calças na mão.

Pela experiência do senhor, apesar de estarem no grupo de risco, há uma negação da doença entre os idosos?
É complicado falar da negação porque envolve uma parcela da população, não só dos idosos. A negação aparece em qualquer situação de crise muito forte, sendo parte do ser humano. Quando se recebe a notícia que irá morrer, algumas pessoas negam. Mas mesmo entre aqueles que me falam, no consultório, que o coronavírus não é um problema tão grave assim, há os que permanecem reclusos dentro de casa. Quando a pandemia chegou com força ao Brasil, boa parte da população já sabia o que iria acontecer, sobre quem era a população de maior risco. A taxa de idosos que ficou realmente dentro de casa é elevada. A adesão ao isolamento foi grande, mesmo entre esses que negam.

A depressão será uma consequência desse isolamento?
O distúrbio de humor tende a ser maior entre os idosos do que na população em geral e envolve a mudança repentina da rotina, perda de interatividade social, como filhos e netos, e o fato de serem obrigados a parar com a atividade física. Muitos nem estão vendo a luz do sol. Eu tive pacientes que ou agravaram-se os problemas pré-existentes ou tiveram problemas de humor por conta disso. Realmente, houve uma mudança muito abrupta e que no Brasil vem perdurando. Estamos ainda num platô de mil mortes por dia, o que os obriga a um distanciamento muito maior. Mas o distúrbio de humor não é a questão que mais me preocupa. A consequência da inatividade física é a mais preocupante. Agora estou com uma grande demanda de pacientes que tiveram uma queda ou estão em dificuldade de marcha. Muitos deles passaram a não ter um lugar sequer para fazer nenhum tipo de atividade física. Para a saúde do idoso, as consequên-cias são graves, podendo ter um traumatismo cranioencefálico, quebrar o fêmur, que é uma tragédia para a saúde dele, com uma mortalidade alta, além do fato de, ao cair uma vez, o idoso fica com muito medo de cair de novo. A demanda por questões ligadas à mobilidade têm aumentado muito no consultório. Outra consequência do isolamento é o represamento do acesso ao sistema de saúde, ao se postergar um tratamento médico devido ao medo de se contaminar pelo vírus. Às vezes, um paciente está com um quadro grave de saúde e vai para o hospital no último segundo, agravando o estado dele. Tive uma paciente com dor ocular, que era um quadro de glaucoma simples, que acabou perdendo a visão por ter ficado adiando.

De uma hora para outra, os idosos ficaram presos dentro de casa, muitas vezes sem ter alguém para comprar as coisas ou retirar dinheiro no banco

No caso da falta de atividades físicas, o que pode ser feito?
Infelizmente, é algo que diz respeito à questão social brasileira. Se o idoso mora numa comunidade, num aglomerado, seria impossível dizer para ele sair de casa e fazer uma caminhada. Não tem como, é uma construção do lado da outra. Quem tem uma condição social melhor, dá para pessoa sair, sem aglomeração. Exercícios físicos em casa, por meio de vídeos e plataformas, é mais prudente para quem fazia isso, para não correr risco de lesão. Quem não fazia exercícios e não tem um problema grave, o melhor é caminhar. E, se possível, ir acompanhado por alguém da família.

Dados do governo federal mostram que, durante a pandemia, as denúncias de negligência, violência psicológica e de abuso financeiro e econômico contra idosos aumentaram no Brasil, saltando de 3 mil em março para 17 mil em maio. O que se pode fazer para evitar essa situação?
A pandemia contribuiu com determinadas situações, como o fato de um familiar ficar com o cartão do idoso e não fazer exatamente o que este queria com o dinheiro dele, mas este tipo de abuso sempre existiu. É importante lembrar que isso é crime e que consta do Estatuto do Idoso, podendo dar multa e detenção. A pessoa não pode pegar o cartão do idoso e sair gastando o dinheiro como quer. Casos assim têm que ser denunciados. A grande questão é que quem abusa do idoso, seja qual abuso for, frequentemente é um familiar, o que faz com que o fato seja acobertado por um longo tempo.

Como o senhor analisa uma pesquisa recente coordenada pela Fiocruz, na qual foi observado que 55% dos idosos que trabalhavam perderam o emprego ou tiveram grande redução na renda durante a pandemia?
A aposentadoria, em nossa sociedade, é quase como deixar de ter um papel social. De um dia para o outro, a pessoa já não serve para mais nada. Aliado a esta questão, tem o fato de a maior parte da população brasileira receber um valor baixo de aposentadoria. No setor privado, a maior parte se aposenta com salário mínimo. E, por isso, as pessoas continuam trabalhando. O índice de brasileiros que trabalham na faixa entre 50 e 60 anos é significativo, sendo a maior parte de maneira informal. Assim, quando houve uma parada súbita da economia, uma parte deles perdeu este rendimento.

O distúrbio de humor não é a questão que mais me preocupa. A consequência da inatividade física é a mais preocupante. Estou com uma grande demanda de pacientes que tiveram uma queda ou estão em dificuldade de marcha