Minas deve ganhar 2,4 mil novos policiais penais – os antigos agentes penitenciários – até o fim deste ano. Eles irão atuar em presídios e unidades socioeducativas. O reforço nas forças de segurança foi um dos temas abordados pelo titular da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), Rogério Greco. 

Com mais de 30 anos de atuação no Ministério Público (MP), ele chegou à pasta há dois meses e promete trabalhar de forma extremamente integrada, com a participação das polícias, tribunais e MP. Dentre os projetos, está o investimento cada vez maior no setor de inteligência para, assim, atuar na prevenção dos crimes.

Quais são os desafios para a segurança pública em Minas?
Quando recebi o convite do governador Romeu Zema e fiz a primeira reunião, ele me passou três objetivos. O primeiro é lidar com a corrupção, um combate forte ao crime de corrupção que é o mal que assolou o país nesses últimos anos. O segundo é combater todas as organizações criminosas, que vem crescendo assustadoramente nos últimos anos. Antigamente eram duas, três, cinco facções. Hoje são dezenas espalhadas pelo país. E, por último, a melhora do sistema prisional. Nossa preocupação é com a prevenção, com o efetivo cumprimento da pena, com o depois do cumprimento da pena. A visão de segurança é bem globalizada.

Quais são os projetos para alcançar esses objetivos?
Temos uma equipe muito unida, com expertise no combate em todas essas áreas. Uma equipe que quer cumprir as metas do governo. Vivemos um momento complicado, uma pandemia em andamento... É diferente lidar com uma situação dessa. Por exemplo, não posso preparar a tropa da forma como gostaria, já que as aglomerações estão proibidas. 

Mas já se mapeou algo nesses dois meses?
O desafio é muito grande. O Estado é muito grande. São características diferentes em cada região. Já começamos a fazer as ações integradas. Fiquei 30 anos no MP e via que as policias não eram unidas, e isso para a criminalidade é perfeito. Quando a polícia se une, o combate à criminalidade é mais fácil. Nós fizemos a segunda operação Caminhos de Minas, entre as policias civil, militar, penal, socioeducativo, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, todos integrados com um objetivo comum, essa integração é muito importante.

Essa integração inclui o MP?
Sim, já fiz várias reuniões no MP, principalmente com os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e com o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça Criminais, de Execução Penal, do Tribunal do Júri e da Auditoria Militar. O TJMG também é parceiro, todos integrados à nossa inteligência. Na área de segurança pública é assim: 70% do trabalho que a gente faz é inteligência e 30%, operação. Sem inteligência não vale absolutamente nada.

Tivemos, neste ano, duas mortes (por Covid) de presos. O sistema prisional tem 60 mil presos. Hoje (dia 29), 258 presos positivados e um internado. O sistema está 100% controlado, com visitas interrompidas para manter esse controle

O que o senhor viu lá fora que pode ser aplicado aqui?
Fiz um curso nos Estados Unidos sobre terrorismo e organizações criminosas transnacionais, nós éramos 45 da América Latina, sendo cinco brasileiros. Criamos uma ligação, que resultou em um grupo de rede social onde trocamos informações. Parece bobagem, mas a comunicação é o mais importante de tudo porque bandido não manda e-mail para ninguém, bandido não manda ofício para ninguém, se a gente não tiver agilidade, se a gente não for realmente integrado, a bandidagem sai na frente. Essas ações integradas visam isso, quebrar a desconfiança entre a troca de informações. E quando isso acontece, a segurança pública cresce assustadoramente.

Minas tem previsão de contratação de novos agentes de segurança neste ano?
Temos uma previsão de contratar 2.400 policiais penais, uma reivindicação antiga. Nós estamos agilizando ao máximo para que esse concurso possa acontecer o mais rápido possível. É interesse nosso, é interesse da administração. A máquina administrativa é burocrática, é mais demorado, leva mais tempo, é necessário se preservar, se precaver em relação à corrupção, uma série de coisa que faz parte dessa máquina. A intenção é que sejam realizados, pelo menos três concursos, dois para o socioeducativo, para agente e para auxiliar socioeducativo, e um para a polícia penal, que tem o maior número de cargos.

Em 2020, Minas Gerais registrou queda de 6,4% no número de homicídios, e o governador, quando deu posse ao senhor, ele disse que quer que o índice chegue ao de países desenvolvidos. Como alcançar esta meta?
Essas ações integradas não só a de repressão, mas, principalmente, de prevenção, que a gente faz esse tipo de trabalho na Sejusp também. Nós temos a secretaria específica para isso. Isso inibe a prática de crimes. Interessante que em Salamanca, na Espanha, em 2005, o último homicídio lá tinha acontecido em 2000, um caso de violência doméstica. Nós nos acostumamos com a violência, ninguém tem que se acostumar com a violência, isso não é normal. O que a gente quer é que esses índices sejam baixíssimos, porque qualquer pessoa tem o direito de chegar no centro da cidade e falar ao celular sem correr o risco de um bandido tomar o telefone ou praticar um crime de latrocínio porque ele queria o seu telefone, isso não é normal. Mas isso não é um trabalho feito só pela segurança pública, o estado social tem que estar presente, porque sem ele a gente não consegue resolver esses problemas. É preciso implementar o estado social, não o socialismo, mas o estado social com saúde, educação, lazer, cultura, habitação. Quando a gente começar a fazer isso, os índices de violência vão reduzir assustadoramente, mas é um conjunto que a corrupção não permite isso, porque o corrupto é um genocida, é um egoísta, é um megalomaníaco, por isso o combate à corrupção tem que ser tão forte, tão incisivo, para que o Brasil possa crescer.

Se a mulher for vítima de violência doméstica, a resposta do Estado tem que ser imediata, rápida e muito dura. O Estado não pode ser negligente nessa proteção

E como vai ser o combate ao feminicídio no Estado? 
A questão do feminicídio é mais preventiva do que repressiva. A gente vive em um país machista. O homem acha que a mulher ainda é dele, propriedade particular física dele. Enquanto não se mudar a mentalidade do brasileiro, de uma forma geral os países latinos são assim, com índice de feminicídio muito alto, os crimes vão continuar. O que precisamos fazer é desde a base, desde a escola, desde o ensino fundamental, ensinar a respeitar as pessoas, respeitar pai, respeitar mãe. Se o filho não respeita pai, não respeita mãe, você acha que ele vai respeitar a esposa, vai respeitar a professora ou o policial? Tudo parte da educação, tudo parte da base, é um conjunto de ações que precisa ser feito. O tempo passa muito rápido, então é preciso projetos imediatistas, e a gente não pode abrir mão, mas muitos projetos a médio e longo prazo também.

Um grande problema nas penitenciárias do país é a entrada de celulares. Já existe um projeto para barrar a entrada dos aparelhos ou mesmo cortar o sinal? 
O custo de um bloqueador é muito alto. Então, fica difícil, porque são 196 unidades entre penitenciárias e presídios em Minas. O que se tenta fazer é a utilização de body scan, que faz o escaneamento corporal, mas os presos têm muita criatividade também, hoje usam drone para jogar o celular dentro do sistema prisional, é uma luta de gato e rato. Eles continuam tratando o sistema prisional como se fosse o escritório do crime, o que eles faziam aqui fora, eles querem continuar fazendo lá dentro. Isso é um absurdo, estamos fazendo várias ações para evitar isso. O país nunca teve um sistema prisional bom, ele nasceu ruim, cresceu ruim, e continua ruim, o que a gente quer é tentar melhorar aquilo que nasceu ruim.