Há 50 anos, as pedras preciosas são parte da história da família de Manoel Bernardes, presidente do Sindicato das Indústrias de Joalherias, Ourivesarias, Lapidações e Obras de Pedras Preciosas, Relojoarias, Folheados de Metais Preciosos e Bijuterias no Estado de Minas Gerais (Sindijoias-MG). Mas, se na época em que o pai dele atuava como atacadista de gemas, vender joias e produtos de alto valor agregado era mais fácil, hoje, é preciso que essa indústria se adeque aos tempos tecnológicos, captando consumidores da nova geração, e apostando em identidade e originalidade. Em um momento delicado e desafiador, como a pandemia provocada pelo coronavirus, de impacto na saúde da população e nas finanças publicas e privadas, o Hoje em Dia conversou com Manoel Bernardes sobre o mercado de joias e bijuterias no Brasil e a representatividade de Minas Gerais neste contexto.

A indústria joalheira brasileira movimenta cerca de R$ 20 bilhões anuais no varejo. Este é um setor que enfrenta crise?
Há duas questões concomitantes. A primeira é a questão da economia como um todo, com a diminuição do poder de compra, a instabilidade política, que, claro, afetam significativamente os negócios. E a segunda são os desafios do setor, que precisa encontrar uma alternativa de se comunicar com os jovens, de se reinventar e encontrar novas razões emocionais para a compra de joias. Então, essas duas questões se superpõem, porque a situação econômica não é só do Brasil, muitos países vivem um reposicionamento econômico. A indústria joalheira diminuiu de tamanho no mundo inteiro, e esse é um primeiro desafio. O segundo, é como você trabalha a joalheria neste contexto dos millenials, dos jovens, de como preparar uma transferência de interesse para as gerações mais novas. Mas, ao mesmo tempo, nós temos as oportunidades. Os baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) estão vivendo mais, estão mais ativos. Durante muito anos, a indústria joalheira viveu essa ideia de que era fácil você convidar as pessoas a consumirem os nossos produtos, como se houvesse um desejo latente pelo consumo de joias. E, hoje, em que vivemos em um mundo de experiências, você tem que se reinventar sempre.

Minas Gerais é responsável por cerca de 25% da produção de gemas no mundo. Isso faz com que o Estado seja um fornecedor natural para o setor de joalheria no Brasil?
É uma questão interessante essa. Até a década de 1990, os brasileiros não consumiam gemas de cor. Eram só rubi, safira, esmeralda e diamante. A partir dessa data, a Manoel Bernardes – junto a outras poucas empresas – liderou o processo de mostrar as oportunidades e o valor que tinha a gema de cor brasileira. Até então, a produção de Minas Gerais era inteiramente exportada, e até hoje o é, em sua grande maioria. Porque poucas empresas se dispuseram a trabalhar essa perspectiva do consumidor. O que a Manoel Bernardes fez? Reinventou-se, procurou um design contemporâneo para poder atrair novos olhares, e desenvolvemos uma expertise em cor, que é o nosso DNA. Então, essa pequena parcela de empresas mostrou que era possível ter produtos interessantes com o olhar brasileiro. Nós temos, hoje, desenvolvido um design brasileiro, cosmopolita, mas brasileiro em sua essência, que utiliza as gemas de cor. As pedras são, até hoje, exportadas. O enorme desafio nosso é fazer com que o povo se interesse, em primeiro lugar, e estimular as joalherias nacionais para desenvolverem produtos que contenham essas gemas.

Manoel Bernardes

A indústria joalheira diminuiu de tamanho no mundo inteiro, e esse é um primeiro desafio. O segundo, é como você trabalha a joalheria neste contexto dos millenials, dos jovens, de como preparar uma transferência de interesse para as gerações mais novas

Esta é uma questão complexa...
É muito importante, num nível mundial, nós termos uma província mineralógica das mais importantes do mundo, e, por isso, o Brasil tem uma posição significativa no exterior de comercialização das gemas de cor, quer sejam lapidadas ou coradas. Quem tem se saído melhor nessa área de exportação são jovens designers brasileiros que têm oferecido produtos incríveis, novos, com olhar cosmopolita, bacana, mas empregando os insumos brasileiros.

E a utilização desses insumos brasileiros traz uma redução de custos quando a gente fala de cenários de crise, por exemplo?
Não necessariamente. A matriz tributária brasileira é extremamente onerosa, particularmente no setor de joalheria. Nós somos dos poucos setores que ainda têm IPI (Imposto sobre os Produtos Industrializados), de 12%. Isso é uma grande deformação, uma inadaptabilidade da matriz tributária à realidade vivida no Brasil e dos produtos. Poucas empresas conseguem vencer a barreira do Simples, impedindo-as de crescer, estimulando a informalidade, por causa da carga tributária excessivamente elevada. Do ponto de vista de insumos, não temos quase nenhuma vantagem em utilizar os produtos nacionais. Para ser sincero com você, hoje estamos preconizando que caia o imposto de importação sobre as pedras brutas vindas de fora, porque nós queremos estimular um centro de lapidação no Brasil. Nós temos uma expertise interessante na lapidação de pedras de alto valor agregado. Estamos pedindo ao ministério que caia com essas barreiras. Mas, do ponto de vista interno, precisamos que haja uma adequação que hoje não existe, e isso não estimula a participação das gemas de cor no contexto da produção nacional.

São muito desafios…
O primeiro é mostrar ao público geral que existe uma possibilidade incrível de criar joias maravilhosas com as gemas de cor. Dois: a matriz tributária inadequada. Três: uma falta de comunicação global. No Brasil nós não temos empresas âncoras que possam fazer uma comunicação do contexto da joia. Temos poucas publicações. Nós não temos nenhuma dirigida ao público de varejo que trate exclusivamente da questão gemas e joias. Por isso, a mudança do consumo é mais lenta.

É muito importante, num nível mundial, nós termos uma província mineralógica das mais importantes do mundo, e, por isso, o Brasil tem uma posição significativa no exterior de comercialização das gemas de cor

O Sindijoias também engloba lapidadores, o setor de bijuterias, enfim, toda a cadeia produtiva. Sendo um sindicato com essa amplitude, existe algum tipo de competição dentro da própria entidade?
Há um trabalho que é feito sempre pela indústria joalheira para colocar que a escolha de uma joia tem sempre um conteúdo emocional atrelado a ela. As pessoas sabem que os produtos envolvidos são raros e de alta durabilidade. A bijuteria resolve um problema estético, não trazendo os atributos emocionais que o produto joia traz. Então, o consumo de joias e bijuterias pode ser feito pela mesma pessoa em circunstâncias diferentes. Nós, do sindicato, temos estratégias específicas para o setor de gemas, procurando valorizar a exportação, por exemplo, criando um bloco de empresas mineiras que trabalham fora do Brasil. A gente procura estimular a indústria de joias no sentido de criar produtos inovadores e gostaríamos que a bijuteria, nesse contexto, aproveitasse novos mercados, criasse coisas mais originais, mais autorais, porque não é possível competir com preço da China. Então, a única solução é a diferenciação de produtos, que implica em desenvolver design autoral e aplicar isso. As estratégias são, em tese, próximas, no sentido da diferenciação, mas na comercialização são radicalmente diferentes. Porque são estratégias de preços, de colocação, diferentes. Então, não há dificuldade.

Manoel Bernardes

A gente não pode deixar de falar de coronavírus. Quais os impactos para a indústria de joias?
Todas as indústrias serão afetadas, de alguma forma, na medida em que houver a limitação do acesso, da locomoção das pessoas, como forma de impedir a propagação do vírus. Mas eu penso no coronavírus como eu penso em 1981, quando o Brasil decretou a moratória, foi um impacto muito grande para nós. Em 1990, quando o Collor fez o sequestro da poupança, a gente se pergunta até hoje como atravessamos. Em 1998, a Crise Russa com a maxidesva-lorização do Real do dia para noite. Todos os nossos produtos ficaram 100% mais caros da noite para o dia. A crise de 2008, que a gente atravessou também. No mundo muito globalizado, os impactos estarão globalizados, também. Você está muito mais preocupado, porque tem a ver com a saúde das pessoas. A gente deve ser mais cauteloso, mais cuidadoso, e certamente vai impactar negativamente a economia brasileira em geral e, particularmente, nos mercados de luxo.

Quais são os desafios para os próximos anos já que a Manoel Bernardes está chegando aos 50?
Se reinventar todo dia, aumentar a digitalização, precisamos preparar o mundo virtual, trabalhar o phygital (um termo que vem da contração das palavras physical e digital) de uma forma mais adequada. A gente está tendo dificuldade, por várias razões, por ser um público mais conservador, o valor do produto é mais caro, e outros desafios específicos da área de joias para o digital. Mas o nosso maior desafio hoje é manter essa coerência de estilo, ter uma identidade própria, mas adaptável aos novos tipos de consumidoras, às novas gerações, e que a gente amplie nossa presença digital significativamente.