Pouco antes da entrevista com a reportagem do Hoje em Dia, o quadrinista mineiro Robson Rocha já dava os primeiros traços à quarta edição da nova série de quadrinhos do Aquaman, herói da DC Comics que acaba de ganhar filme solo, em cartaz nos cinemas. A série ainda é inédita no Brasil – a primeira edição foi lançada no mês passado nos Estados Unidos, junto com o longa-metragem – e o desenhista corre contra o tempo para entregar todo o material até março, data prevista para o nascimento de sua filha. Aos 38 anos, Rocha é um dos poucos artistas brasileiros exclusivos da casa de Batman e Superman, onde trabalha desde 2011, já tendo desenhado para títulos como “Liga da Justiça”, “Superboy”, “Supergirl”, “Lobo” e “Lanterna Verde”. Nesta entrevista, ele fala sobre o início da carreira, a sorte de já ter começado numa grande editora e de sua nova cria, agora badalada pelo cinema.

O filme sobre Aquaman foi lançado na mesma época em que o gibi do herói, desenhado por você, chegava às bancas americanas, no final do ano passado. Há uma conexão entre os dois?
Não necessariamente. Os produtores do filme aproveitaram o visual dos quadrinhos, com o Aquaman cabeludo e barbudo, mas este figurino já estava presente nas revistas feitas antes de mim. Já a história contada no filme não tem nada a ver. Quer dizer, digo isso sem assistir o filme (risos). Apenas pelo o que li nos reviews (críticas) e do que me contaram. 

Você teve liberdade para impor seu estilo de desenhar?
O personagem não pode se transformar muito. Tem que ser reconhecível para o público. Eu gosto dos clássicos, tanto que queria usar o uniforme clássico do Aquaman, mas, por causa da história que está sendo contada agora, em que ele perde a memória e vai buscar saber quem é, não caberia. O que busquei foi deixá-lo o mais mitológico possível. Sou fã de histórias de magia e tive a liberdade de criar todo o visual, fazendo o design dos personagens. Estou muito satisfeito em poder colocar aquilo que gosto de desenhar.

Este tipo de liberdade não é muito comum nos gibis de super-heróis americanos, não é verdade? Há um grande controle por parte dos editores, principalmente.
Normalmente a gente recebe um título (uma saga) na metade, já com uma ideia do que irá acontecer. E os roteiristas não são tão abertos. Mas a Kelly Sue DeConnick (a primeira mulher a escrever a história do herói marinho) fez questão de dividir comigo, de querer saber os meus pontos de vista sobre a história. Visualmente, este Aquaman ficou 100% a meu cargo. Com exceção da Mera, quase todos os personagens são novos. A vilã, Nama, também é nova e tive liberdade de criar o design dela. Posso dizer que foi a melhor equipe com quem trabalhei artisticamente até hoje.

Você continuará desenhando o Aquaman ao fechar a saga? Pergunto isso porque, se não me engano, em quase uma década na DC Comics, você nunca ficou mais de um ano à frente de um título.
Inicialmente me pediram um arco de cinco edições, pois farei uma pausa em março para o nascimento de minha filha. Depois, terão duas histórias de ligação do primeiro para o segundo arco que não participarei. Voltarei para fazer mais cinco edições. Não sei o que acontecerá depois. Normalmente eles me mudam de título.

Isso não é ruim? 
Depende do caso, pode ser bom ou ruim. Para eu me acostumar a desenhar um personagem, eu preciso de umas duas edições. Parece que flui melhor, deixando-me mais confortável com o personagem. Um trabalho mais longo ajuda a desenvolver mais.

Uma curiosidade no seu trabalho com o Aquaman é que um dos brasileiros que já desenharam o personagem é Joe Prado, que é hoje seu agente e abriu as portas da DC para você.
Pelo o que eu li, o filme do Aquaman é mais baseado no trabalho dele com o Ivan Reis, feito em 2011. Sou fã deles, li tudo o que saiu na época. Tive muitas dicas valiosas do Joe, não necessariamente para o Aquaman, mas sobre o mercado, e que uso até hoje. Fiquei sabendo do Joe fuçando na internet, tentando achar nomes de agentes no Brasil. Durante dez anos, só fiz testes. Era bem ruim (risos). Desisti e voltei várias vezes.

A sua primeira revista foi já para a DC, em 2010. Como surgiu esse convite?
Fiz uma das passagens para uma edição. Quatro páginas. Depois as oportunidades foram surgindo, foram me pedindo mais quatro páginas. Fiquei um ano fazendo essas pequenas partes até ser o titular como desenhista de uma edição inteira. Aí comecei a fazer muito personagem, o Lanterna Verde, a Supergirl...

Robson Rocha

A partir de 2016, você passou a ser exclusivo da DC, ao lado de outro mineiro, o Eddy Barrows.
Sim, é mais uma garantia. Eu, particularmente, gostei. A minha relação com a DC é muito boa. Não fico brigando com o pessoal lá. Tenho vontade de desenhar outros personagens que não sejam da DC, mas não agora. Não vejo pressa nisso. Quer dizer, fiz no mês passado uma das capas da “Turma Mônica Jovem”, numa edição que tem a participação da Liga da Justiça.RG]

Quadrinho autoral?
Uma hora também vou querer fazer, mas ainda tenho muitos personagens da DC para trabalhar.

Qual personagem da DC você gostaria de desenhar?
A DC tem muitos personagens, não sei lhe falar quantos. Os personagens que mais gosto de trabalhar são os do Lado B. Você tem mais liberdade. Atualmente, tenho muita vontade de desenhar a Mulher-Maravilha e o Etrigan (espécie de demônio criado por Jack Kirby). A Mulher-Maravilha pertence ao alto escalão, mas o Etrigan não. Em longo prazo, gostaria de fazer uma aventura solo do Batman.

Você já desenhou os principais heróis da DC, Batman e Superman, em “Liga da Justiça”. É diferente quando se está à frente de personagens icônicos? Existe pressão interna e externa?
Os personagens de mais nome são mais vigiados. Você tem menos liberdade com eles, já que não podem perder as características. Diferente, por exemplo, de quando você faz o Lobo, em que eu peguei de um jeito e, no final do arco da história dele, já fazia de outro. Não quer dizer que, no caso de Superman e Batman, você faça uma imitação dos outros desenhos, mas tem que seguir um padrão.

Você sempre desenhou super-heróis?
Sim, desde sempre. Via muito desenho animado na TV e meu irmão mais velho já tinha contato com as revistas dos X-Men, do Homem-Aranha... Acabei lendo muita coisa. E, como eu morava em Sabará, como toda cidade pequena, você acaba sabendo quem é a galera que gosta também. Trocávamos bastante revistas.

Como você vê esse boom de quadrinistas mineiros trabalhando para as grandes editoras dos Estados Unidos? O que há de especial no trabalho de vocês que chamou a atenção lá fora?
Vai muito da capacidade de cada um. A pessoa tem que ser aplicada, se dedicar muito. Do contrário, não consegue. Se você perde prazos, o editor acaba lhe cortando. Hoje o pessoal tem mais informação, em termos de estudo. Eu tive que aprender na marra. Não tinha internet. Para estudar anatomia, por exemplo, era muito complicado. Lembro de tirar xerox de livros de amigos meus. Hoje tem mais de 30 mil sites sobre essa questão.

Depois de tantos anos desenhando super-heróis, você chega, em algum momento do processo, a encampar a questão moral deles no seu cotidiano?
Sim. A gente começa a ter um senso do que é certo ou errado, de hombridade, de moralidade. Você aprende com um super-herói, passando a ter nele um parâmetro do que bom e mau.

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