​Toninho Horta é um dos grandes embaixadores da música mineira. Oriundo do Clube da Esquina, movimento musical que lançou luz sobre o trabalho de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, entre tantos outros, a partir da década de 1970, Toninho enxerga nas melodias mineiras a mesma sinuosidade das montanhas que caracterizam nossa geografia. Aos 70 anos e cinco décadas dedicadas à carreira, um dos maiores guitarristas de jazz do mundo começa a abandonar o lado cigano que o levou a uma agenda abarrotada de shows no exterior. Os projetos cada vez mais se aproximam do Brasil e, especificamente, de Belo Horizonte.

Na semana passada, ele lançou na capital mineira o álbum “Belo Horizonte”, muito simbólico deste momento de retorno às raízes. Recentemente, teve aprovada, na Câmara Municipal, o projeto sobre o dia do jazz em BH, que acontecerá todo 30 de abril. Também espera finalizar livro sobre a música brasileira –já tem cerca de duas mil páginas. Nesta entrevista ao Hoje ao Dia, na área de lazer do prédio onde mora, no bairro Mangabeiras, também revela o desejo de criar uma banda com nomes alternativos para divulgar a música feita em outros estados. “É algo educativo, porque sou mais velho, e também é bom porque dou oportunidade para quem mora lá em Santarém e a gente não conhece”, registra.

O CD recém-lançado “Belo Horizonte” tem encarte de 150 páginas que conta a história do guitarrista, do Clube da Esquina e de sua trajetória de mais 30 discos e inúmeros shows no exterior

Após 50 anos de carreira, em que você passou mais tempo fora da cidade, lançar um CD duplo com o título “Belo Horizonte” é muito simbólico, não é verdade?
A gente sai, mas o meu pouso é aqui. Sempre me considerei mineiro. Sou muito feliz de estar aqui. Todo mundo me conhece no bairro. Até o catador de papel, que sempre, quando me vê, grita “Oi, Toninho! Oi, Toninho!”. Como minha foto sai toda hora no jornal, acredito que ele me conheça daí. Outro dia fui numa drogaria aqui perto e lá tinha uns meninos pobres sentados na porta. Fui lá dentro e comprei R$ 50 de pão, rosca, biscoito e refrigerante para distribuir a eles. Quando estava indo embora, ao abrir a porta do carro, uma mulher me abordou e disse que admirava muito a minha música e que agora tinha se tornado muito mais minha fã depois de ver a minha ação. Aí ela começou a chorar. São estas coisas inusitadas que às vezes acontecem quando estou em Belo Horizonte. A gente tem esta responsabilidade de estar levando a música daqui lá para fora.

 

Toninho

Com o apoio da Prefeitura, Toninho Horta está à frente da instituição do dia do jazz, uma forma de “elevar a música instrumental em Minas”

Você costuma participar de movimentos sociais, como vários artistas têm feito hoje em dia?
Não tenho engajamento político, não. A gente conseguiu, através do meu instituto, fazer uma lei municipal que institui o dia do jazz, que será todo 30 de abril. Com o apoio da Prefeitura, vamos abrir para as pessoas mandarem, todos os anos, os seus projetos. Assim damos continuidade ao trabalho de elevar a música instrumental em Minas. Com o que os aristas fizeram aqui, Minas se tornou uma referência importante a nível internacional. 

Apesar de ter Belo Horizonte no coração, a verdade é que você foi e continua sendo muito solicitado para shows no mundo inteiro desde quando lançou “Diamond Land” nos Estados Unidos, mudando-se para Nova York na época...
Do final dos anos 80 para cá, passei muito tempo fora, mas agora quero trabalhar mais na parte da orquestração e deixar de aceitar todos convites que me chegam para tocar. Eu cantava com gregos e troianos, alguns até mais amadores. Quero me controlar mais e ter mais tempo para compor. Tenho muita coisa para resolver de direito autoral, com a chegada do digital. Na verdade, nunca fui muito organizado, em relação à grana. A minha fortuna sempre foi a música. Claro, não vou deixar de ir para o Japão. Devo me apresentar lá agora, assim como na Itália e nos Estados Unidos. No Japão, vou estar no Blue Note, e terei a minha sobrinha Diana (Popoff), que lançou um disco lá, como convidada. Tenho muitos projetos pela frente. Um deles é um livro chamado “A História das Minhas Guitarras”. Tive vários instrumentos. Comprei, perdi, fui roubado... Sou muito desorganizado. Elas ficam espalhadas. 

Um outro livro que você vem trabalhando há muitos anos, chamado de “Livrão da Música Brasileira”, em que reúne centenas de músicas que considera as mais importantes da História, quando pretende lançar?
São quatro livros de 450 páginas cada. Estamos pensando em, no segundo semestre, depois que voltar do Japão, começar a trabalhar nele. Patrocínio está cada vez mais difícil, né? Então minha ideia é ficar aqui de outubro a fevereiro e aproveitar para fazer contatos com fundações, com gente daqui e de lá fora que gosta de investir. Já copiamos 650 partituras. Agora só falta atualizar a pesquisa dos últimos anos, colocando também gente de outras regiões e menos conhecidas, como o Wilson Fonseca, de Santarém. Ele virou dono de conservatório e tem big band e orquestra sinfônica. Nestas minhas viagens, a gente acaba descobrindo muitos valores. É a vantagem de ser cigano.

Toninho tocou com os nomes mais importantes do jazz mundial, como Keith Jarrett, George Benson, Wayne Shorter, Pat Metheny, Sergio Mendes e Gil Evans

A lista de parceiros com quem você tocou em discos e shows é enorme. Faltou alguém?
(risos) O Luiz Eça é um deles. Ele chegou a tocar coisas minhas. Outro músico fantástico que sempre gostei é o Altamiro Carrilho, flautista. Dos americanos, tem o (pianista) Herbie Hancock. Numa entrevista, ele disse que eu pareço o “Herbie Hancock da guitarra”. Nós participamos de um disco do Milton (Nascimento).

Pat Metheny, guitarrista americano que já ganhou mais de 20 prêmios Grammy, já disse que você desafia a gravidade, com a sua progressão de acordes e solos.
Ele se inspirou muito em Minas, em todo mundo do Clube da Esquina. Ele veio ao Brasil em 1980 e gravou comigo as músicas “Manuel, o Audaz” e “Prato Feito”. Ele vinha daquela coisa do folk, do jazz, mas quando esteve em casa e eu preparei um peixe assado com macarrão, o Pat ficou ouvindo os discos do Clube da Esquina. Em 1984, ele gravou um disco chamado “First Circle”, em que você percebe a música mineira como influência. 

Você também gosta de trabalhar em projetos para ajudar a revelar músicos, não é verdade?
Essa é a minha contribuição através do instituto. Não tem nada de político. O Juarez (Moreira) é quem gosta. Às vezes ele me chama para um encontro, eu digo que irei e nunca vou. Eu tenho visto algumas pessoas na internet. Muita gente me manda coisas. Às vezes o cara me manda seis músicas e, quando acompanho a primeira e não gosto, eu não ouço o resto. Mas alguns nomes têm me chamado a atenção. Um deles é um garoto de 21 anos chamado Lucas. A gente tem se falado há uns três meses. E tem um outro da Amazônia, que estudou fora e toca guitarra com uma influência de músico americano, mas com as harmonias que eu toco. Procurem no YouTube e vejam a maneira como toca minha música “Francisca”. É impressionante. A partir deles, me deu vontade de montar uma banda com uma nova concepção, misturando um pouco com a música que várias pessoas estão fazendo pelo Brasil. Até comentei com o Lucas a ideia meio louca de botar na internet que “Toninho Horta está querendo formar uma banda com músicos do Brasil inteiro. Mostre seu talento e envie para nós”. É algo educativo, porque sou mais velho, e também é bom porque dou oportunidade para quem mora lá em Santarém e a gente não conhece. Tem outras duas pessoas que estão com a música bem avançada, que é a Diana Popoff, que está morando em Paris e se arrisca muito, e o João Salinas, que é do Rio Grande do Norte. É gente que me surpreende.