Espera-se que não vire caso de polícia a brincadeira com o córrego do Leitão. Como noticiou este jornal, no último fim de semana uma placa apareceu num quarteirão da rua Padre Belchior, anunciando que o córrego, que se acha oculto há 42 anos sob camadas de concreto e asfalto, seria renaturalizado – ou seja, voltaria a correr a céu aberto. A placa foi logo considerada uma brincadeira, mas, de repente, se descobre que a Delegacia Fazendária da Polícia Federal se ocupa em analisar se houve crime ou não.

A dúvida se origina do uso de logotipos de órgãos federais como patrocinadores do “projeto” fictício. Nos anos 60, foi também notícia de jornal o furto de um esqueleto da Faculdade de Medicina da UFMG por estudantes do curso de Direito. Na época, predominou o bom-humor, e os culpados pela brincadeira puderam se formar sem problema, tornando-se advogados, jornalistas ou juízes.

O caso da placa, se alguém a levou a sério, pode ter assustado moradores da rua e comerciantes do Mercado Central, por causa do mau cheiro piorado do Leitão correndo a céu aberto. No passado, a Prefeitura de Belo Horizonte tentou resolver o problema do mau cheiro e, de quebra, ganhar mais espaço na rua para o trânsito de veículos, cobrindo o córrego desde sua nascente até desaguar no ribeirão Arrudas.

Não fez o devido: captar o esgoto e tratá-lo, como fez Paris com o rio Sena, cujas margens se tornaram locais preferidos para piquenique dos parisienses. Algo como o sugerido na ilustração daquela placa.

Enquanto a ameaça persistir, não vai aparecer o autor do “crime”. Mas não é crime qualquer ação que vise despertar a população contra o que se faz com nossos cursos d’água, desprezando alternativas ecológicas. Aos poucos, o ribeirão Arrudas vai deixando de ser um ribeirão a céu aberto e se transformando numa grande rede subterrânea de esgotos.

Enquanto não se consegue mudar mentalidades, nossos ribeirões continuarão sendo malcheirosos receptáculos de esgoto. Ontem mesmo se noticiou que a meta de despoluir a lagoa da Pampulha sofreu mais um revés. Não apareceram interessados na licitação aberta pela Copasa. Ela estuda oferecer mais vantagens às empresas para que o trabalho seja realizado. Por enquanto, é o lucro que predomina sobre o interesse público.

Numa situação assim, como querer que a Polícia Federal, tão atribulada de encargos, perca tempo para descobrir quem usou, não de todo em vão, algumas siglas de órgãos públicos?