Governo recua e já admite nova destinação para casarão

Clarissa Carvalhaes Hoje em Dia
25/11/2013 às 07:55.
Atualizado em 20/11/2021 às 14:21
 (Marcelo Prates)

(Marcelo Prates)

O casarão da rua Manaus, no bairro Santa Efigênia, não será mais um memorial dedicado apenas a Juscelino Kubitschek. Após a denúncia exclusiva publicada ontem pelo jornal Hoje em Dia – a de que o prédio preserva um sítio arqueológico urbano com vestígios de terror, clausura e sofrimento dos pacientes que passaram por lá enquanto Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (1947–1979) –, o Governo do Estado, por meio do chefe da Assessoria de Articulação, Parceria e Participação , Ronaldo Pedron, garantiu que o espaço não contará mais a história de uma pessoa e sim de todos que passaram por lá.

“Era um espaço conhecido, embora estivesse esquecido”, reconhece Pedron. “Mas é preciso lembrar que espaços como esse eram comuns na década de 1930. Tanto em sua estrutura física como nas práticas que parecem ter ocorrido ali. Tratamentos que hoje são inadmissíveis e felizmente não são mais praticados”.

“É evidente a importância de JK, não só como um dos políticos mais influentes do Brasil, como também por ter atuado como médico no local em 1933, mas concordamos ser mais significativo fazer do casarão um lugar vivo, que pode representar um espaço da história da cidade e dos que passaram por ali. Acreditamos que a loucura, o espaço como manicômio e os tratamentos realizados são componentes mais fortes para construirmos um espaço a partir desse olhar”, afirma Pedron.

Disputa

O maior embate a partir de agora será decidir quem vai assumir de fato o casarão. Desde julho, a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma) tem aval da Diretoria de Patrimônio Público para iniciar obras emergenciais, de escoramento e cobertura do telhado, já que o prédio apresenta um estado ruim de conservação.

“No entanto, isso só será decidido depois que o projeto do grupo que representa o Espaço Comum Luiz Estrela for submetido à Diretoria. Não enxergamos isso como uma briga. Ao contrário, será muito bom se entrarmos em acordo e trabalharmos juntos”, garante Pedron.

O advogado do Espaço Comum Luiz Estrela, Joviano Mayer, comemora a mudança de posição do Governo, mas lembra que a discussão vai além da destinação do casarão. “Queremos que os espaços culturais estejam abertos para a sociedade civil organizada, independentemente da participação de empresas”.

Na próxima quarta-feira, Governo e representantes das partes fazem nova reunião. Na pauta, prazos de entrega de projetos para o casarão e a saída dos ocupantes.

Historiador defende criação de um memorial da loucura

Há 30 dias, o historiador Francisco Foureaux acompanha a descoberta do sítio arqueológico urbano no casarão da rua Manaus. Segundo ele, a edificação que hoje abriga o Espaço Comum Luiz Estrela tem estilo neoclássico, característico do início do século XX.

A maioria destas edificações não existe mais em BH, o que reforça a importância da preservação do edifício. “Em um espaço de quatro quarteirões, o casarão e a e a igreja Santa Efigênia são as únicas construções originais do período”, defende Foureaux.

Esse casarão foi utilizado, na maior parte do tempo, para abrigar pacientes psiquiátricos. “Ao nos debruçarmos sobre esse uso, vamos nos debruçar sobre a própria história da loucura e, mais ainda, inevitavelmente, falar do triângulo da loucura: BH, Barbacena e Juiz de Fora”, afirma o historiador.

As duas últimas cidades têm um histórico manicomial conhecido internacionalmente como “holocausto brasileiro”. Com a descoberta, BH pode ser associada a esta fase da psiquiatria.

História

“Nenhum monumento na rua é inocente: todos têm algo a dizer e dizem a respeito de alguém. Contar a história dos homens que construíram e viveram suas vidas aqui dentro é contar a história de como a cidade proporciona o acesso dos seus habitantes à riqueza nela produzida”, pondera o historiador.

“Ao vasculhar essa história e abrir as portas do casarão para a cidade poderemos descobrir quem eram as crianças que foram parar ali. Foram abandonadas pelas famílias? Eram infratores? Hiperativos?”

O historiador afirma que foram utilizadas técnicas muitas vezes agressivas, desumanas, como confinamento, lobotomia, eletrochoque, mordaça e camisa de força. “É esse espaço descoberto que vai revelar como esses pacientes foram tratados, como essas práticas se davam. É uma longa história e uma grande descoberta para a cidade”, garante Foureaux.

Cronologia 

1913 – O casarão na rua Manaus, 348, é construído para receber o Hospital Militar da Força Pública Mineira, a atual Polícia Militar. No ano seguinte foi inaugurado.

1933 – Então médico, ex-prefeito de BH e ex-presidente JK presta serviços no hospital.

1947 – O Hospital Militar muda para seu endereço atual na avenida do Contorno. Casarão passa a abrigar o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil.

1979 – O prédio é transformado em uma escola para crianças com necessidades especiais.

1994 – O imóvel é tombado pela Diretoria de Patrimônio Histórico de Belo Horizonte. No mesmo ano, a escola foi fechada e o casarão abandonado.

2007 – A Fhemig anuncia o projeto da construção do Núcleo de Ação Cultural, Educacional e de Inclusão Social (Naceis) com objetivo de promover oficinas artísticas e profissionais para pacientes do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (Cepai). A proposta não avançou e o imóvel seguiu fechado.

Julho de 2013 – É firmado o termo de cessão do imóvel à Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), para ser criado um memorial em homenagem a Juscelino Kubitschek. Na ocasião, a Feluma comprometeu-se junto ao Ministério Público (MP) a realizar as reformas emergenciais no imóvel em, no máximo, 60 dias.

Setembro 2013 – Vence prazo da Feluma, que solicita mais 180 dias para fazer as obras emergenciais. O MP concede prazo até abril de 2014.

Outubro (26) 2013 – Artistas e intelectuais ocupam o casarão e passam a realizar atividades culturais gratuitas para a comunidade. Durante a ocupação, descobrem o sítio arqueológico urbano com vestígio de tortura de pacientes.

Novembro (26) 2013 – Agendada quarta reunião entre Governo de Minas, Ministério Público e representantes do Feluma e Espaço Comum Luiz Estrela.
 

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