sem monitores e porteiros

Moradores do Morro do Papagaio são impedidos de usar prédio para aulas de judô, capoeira e balé

Vanda Sampaio
vsampaio@hojeemdia.com
17/05/2022 às 08:25.
Atualizado em 17/05/2022 às 08:25
Auditório onde eram feitas aulas de capoeira, judô e dança ficam fechados (Redes Sociais)

Auditório onde eram feitas aulas de capoeira, judô e dança ficam fechados (Redes Sociais)

Rua São Tomás de Aquino, 640, aglomerado do Morro do Papagaio, região Centro-Sul da capital. O endereço é um dos lugares mais importantes da comunidade: um prédio de três andares, construído com dinheiro público pelo programa Orçamento Participativo, para funcionar como centro esportivo, de lazer e social.

Mas, os moradores denunciam que o auditório, o terraço e a biblioteca ficam o dia quase todo trancados com cadeados. 

Auditório onde eram feitas aulas de capoeira, judô e dança ficam fechados (Redes Sociais)

Auditório onde eram feitas aulas de capoeira, judô e dança ficam fechados (Redes Sociais)

“O prédio é um elefante branco. Funciona apenas com 30% da capacidade com o serviço de assistência social. Tudo que está ligado ao esporte e ao lazer foi encerrado”, denuncia o líder comunitário Wagner Azevedo.  

O morador pondera que, enquanto escolas abrem as portas para receber os alunos, a comunidade que tem um prédio com uma infraestrutura impressionante, não pode ser usada.

Nossa equipe visitou o local e constatou que nos fins de semana o prédio fica praticamente vazio, com exceção da quadra de esportes. Não há monitores e nem porteiros. 

Alegando motivos de segurança, a Prefeitura limitou o acesso da comunidade, deixando centenas de crianças e adolescentes de uma das regiões de maior vulnerabilidade social de BH sem as aulas de judô, balé, capoeira que faziam no local. 

Decepção 

As famílias que já sofrem com a pobreza e o desemprego reclamam que, sem o espaço para cursos e treinamento, os filhos ficam mais expostos ao tráfico.

“Depois que as atividades foram suspensas, meu filho de 15 anos saiu de casa e voltou a se aproximar dos traficantes. Hoje, está envolvido com a criminalidade. Era um adolescente que tinha sido resgatado pelo esporte, graças às aulas de judô que aconteciam no terraço do prédio aos finais de semana ”. O relato é de uma mãe que pediu para não ser identificada, com medo de retaliações dos criminosos.

E ela não está sozinha. Na comunidade com mais de 17 mil moradores, centenas de pais, que não têm condições financeiras para pagar cursos e oficinas para os filhos, ficam sem saber o que fazer. 

“É difícil aceitar que temos um prédio que poderia oferecer oficinas de capoeira, de jazz, de teatro, uma biblioteca lotada de livros, mas que fica fechado. Perdemos tudo depois que a prefeitura trancou as portas e impediu nosso acesso. Basta percorrer as ruas da favela para perceber que estão ainda mais cheias de jovens sem ocupação e, ainda, mais vulneráveis ao tráfico”, denuncia a mãe.

História 


Redes Sociais 

O prédio foi construído há mais de 20 anos pela Prefeitura de Belo Horizonte, a pedido da comunidade, pelo Programa do Orçamento Participativo. O projeto arquitetônico foi planejado para que as atividades fossem oferecidas no local, em conjunto com os trabalhos sociais. Inicialmente era com o Núcleo de Assistência ás Famílias, que depois  se transformou no Centro de Referência de Assistência Social, o CRAS. 

“A parceria funcionou muito bem durante anos. Até que perdemos todos os monitores que eram contratados pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer. Os porteiros foram dispensados. A prefeitura começou a limitar nosso acesso, alegando que nós iríamos depredar o espaço, relata Wagner Azevedo. 

“O prédio pulsava com a comunidade. O local funcionava durante a semana até às 21 horas e aos fins de semana o dia todo”, relembra o líder comunitário.  

Acessos fechados  (Redes Sociais )

Acessos fechados (Redes Sociais )


Redes sociais 

Nossa equipe de reportagem constatou que a maior parte dos acessos usados pela comunidade são independentes. Não é necessário passar por dentro do prédio, usado pelo Cras, para entrar no auditório ou ter acesso à sala em que os materiais esportivos ficam guardados.

Trabalho voluntário suspenso

Alunos do curso de Judô (Acervo Pessoal )

Alunos do curso de Judô (Acervo Pessoal )


Acervo Pessoal 

“Sem monitores, conseguimos voluntários para assumir  algumas atividades com as crianças e adolescentes. Mas, agora, a prefeitura nos impede de entrar, alegando que não há como garantir a segurança do prédio, porque falta de porteiro”, relata o líder comunitário.

Um dos voluntários que trabalharam com a comunidade foi Gustavo Tupy, professor de judô. Mesmo sem nenhuma ajuda financeira, ele dava aulas no terraço do prédio para mais de 30 crianças e adolescentes. “Era um trabalho incrível. O grupo chegava  motivado. Participamos de vários campeonatos, inclusive em outras cidades. Com a prática esportiva, era mais fácil prevenir contra o tráfico”, conta o professor. 

Sem lugar para treinar, Gustavo Tupy, explica que o grupo chegou a fazer aulas na laje da casa de um morador, mas não deu certo. Foi frustrante ver tantos jovens talentosos  sem um lugar para treinar, com tanto espaço ocioso no prédio”, lamenta.

Revelação de talentos 


Acervo Pessoal 

As aulas de judô ajudaram a revelar novos talentos. Sara Freitas de 13 anos teve contato com o esporte pela primeira vez no terraço do prédio. E se destacou tanto que foi convidada para treinar na equipe de base do Minas Tênis Clube. Hoje, a adolescente viaja pelo clube para disputar campeonatos. 

“Outras crianças também poderiam ter seguido o mesmo caminho da minha filha. Mas, a Prefeitura, que mais deveria ajudar, colocou um ponto final no projeto”, conta Iara Freitas, mãe da judoca Sara Freitas.  

Suspeito 

Enquanto moradores não podem entrar no prédio, carros são guardados no local (Redes Sociais )

Enquanto moradores não podem entrar no prédio, carros são guardados no local (Redes Sociais )


Redes Sociais

Mas, apesar de toda essa limitação de acesso ao prédio denunciada pela comunidade, a reportagem do Jornal Hoje em Dia constatou que a chave que dá acesso à quadra foi liberada para que carros fossem guardados na lateral do prédio. Com isso, quem quiser usar a quadra precisa dar a volta pela entrada do Cras. 

Tentativa de negociação

Dezenas de representantes da comunidade tentam um acordo com a PBH  (Redes Sociais )

Dezenas de representantes da comunidade tentam um acordo com a PBH (Redes Sociais )


Arquivo pessoal 

Desde o fim do ano passado, dezenas de líderes da comunidade tentam negociar com a prefeitura para que o prédio volte a ser usado sem tantas limitações, sem sucesso. Nós solicitamos à prefeitura acesso à ata da reunião, mas não tivemos retorno. Também participaram desse encontro os gestores do Cras. 

Explicação da Prefeitura 

Procurada pela reportagem, a Prefeitura da Capital não informou porque não há monitores para coordenar as atividades nos espaços públicos do prédio. E nem justificou a ausência de porteiros que pudessem ficar no local das 17 até às 21 horas, como reivindica a comunidade durante a semana e aos fins de semana.

A nota da prefeitura também não explicou porque a sala onde os materiais esportivos, que fica do lado de fora do prédio, não pode ser usada pelos voluntários. 

Sobre o uso do terraço, sala multiuso, aulas de dança do programa Fica Vivo  e outros espaços internos no prédio, a justificativa é que o local só pode ficar aberto das 17 às 19 horas, com presença de monitores da comunidade,  porque, depois desse horário, o porteiro vai embora.  

Sobre o acesso à quadra estar sendo usado como garagem, a Prefeitura informou que desconhecia o problema e que enviou uma  equipe de fiscalização ao local. 

A PBH informou que em 2021 o CRAS Santa Rita, realizou, 3.303 atendimentos técnicos e, nos quatro primeiros meses deste ano, 756 atendimentos como inserção e atualização do Cadastro Único das famílias.  

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