Sem ajuda

Sobreviventes da tragédia de Mariana usam pás e enxadas para recuperar estrada até Bento Rodrigues

Vanda Sampaio
vsampaio@hojeemdia.com
23/03/2022 às 08:30.
Atualizado em 23/03/2022 às 13:59

Chegar ao que restou do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na região Central, tornou-se um desafio para muita gente que luta para manter viva a história destruída pela lama. A estrada de terra que servia de acesso foi parcialmente destruída no início do ano.

O vilarejo centenário foi varrido do mapa na tarde do dia 5 de novembro de 2015, por uma avalanche de rejeitos de minério, depois que do rompimento da Barragem de Fundão, no Complexo Industrial de Germano, que pertence à Samarco e a suas controladoras, a Vale e a australiana BHP Billiton.

Seis anos depois da tragédia que resultou na morte de 19 pessoas, antigos moradores encontram dificuldades para voltar a Bento. Muito têm de cuidar dos animais que vivem em propriedades que não foram atingidas pela lama; outros querem ir à igreja ou visitar parentes e amigos no cemitério.

Mas parte do acesso de terra de 24 quilômetros está intransitável. E, para chegar ao antigo distrito, o jeito foi recorrer a enxadas, pás e picaretas para abrir à mão um desvio na principal estrada de acesso ao local. 

“Um dos moradores do distrito morreu e não pudemos usar a estrada para chegar ao cemitério. Tivemos que passar pela estrada que dá acesso à barragem que destruiu as nossas vidas, com uso de batedores", lamenta Mônica dos Santos, integrante da Comissão dos Atingidos de Bento Rodrigues. 
  
Segundo ela, desde 11 de janeiro, moradores pedem, sem sucesso, ajuda à Fundação Renova para recuperar a estrada. A fundação foi criada para reparar os danos do rompimento da barragem.“Não dá para passar nem a pé pelo local. Cansados de esperar decidimos nos organizar para construir um acesso alternativo”, explica Mônica. 

A Comissão dos Atingidos de Bento Rodrigues afirma que máquinas pesadas usadas pela mineradora na construção de diques, com a finalidade de reduzir os impactos do rompimento da barragem, circulavam pela via. “Essa movimentação de veículos pesados, também ajudou a danificar a estrada de terra”, diz a integrante da Associação. 

Explicação da Renova 
Em nota, a Fundação Renova esclarece que a intervenção necessária para a recuperação da estrada não faz parte de suas atribuições. E que a entidade de direito privado, sem fins lucrativos, tem o propósito exclusivo de gerir e executar os programas de e ações de reparação e compensação dos danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão.  

Tragédia 
O rompimento da barragem da Samarco e de suas controladoras a Vale e a BHP Billiton, em Mariana, em 5 de novembro de 2015, é considerado o maior desastre ambiental do país. Com o colapso da estrutura, 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos atingiram vários cursos d'água, atingiram o Rio Doce e se deslocaram pelo seu leito até chegar ao Oceano Atlântico, no município de Linhares, no litoral do Espírito Santo. 

Além de destruir Bento Rodrigues, várias localidades rurais, como as comunidades de Paracatu de Baixo, Camargos, Águas Claras, Pedras, Ponte do Gama, Gesteira, além dos municípios mineiros de Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado foram atingidos pela lama.

Em nota, a Samarco esclareceu que não utilizava a referida estrada vicinal para o trânsito de veículos pesados. "As intervenções para sanar os danos causados pelas fortes chuvas a essa estrada municipal não são de competência da empresa", diz a nota.

A Samarco ainda informou que, em atenção ao pedido de membros da comunidade, disponibilizou um acesso interno da empresa para viabilizar a circulação diária para o antigo Bento Rodrigues.

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