Choque de gestão

Aqui é Galo! / 29/11/2019 - 15h04
galo

 

 

Agora é oficial: não falarei mais em Atlético nesta coluna até o final do ano. Está certo que 2020 já está batendo à porta, mas confesso que eu e o Galo estamos igual ao Nigel Mansell empurrando uma Lotus no GP dos Estados Unidos de Fórmula 1, em 1984, desmaiando a poucos metros da linha de chegada.

Segundo o meu dicionário, desmaio é uma perda súbita de consciência, com recuperação espontânea, sensação que pode ser precedida de mal-estar, enjoo e alterações na visão. Com exceção das palavras “súbita” e “recuperação”, já que o time mantêm esta maré ruim há alguns meses, é o retrato do Atlético em 2019.

Os jogadores, todos eles, deverão passar por um exame minucioso no oftalmologista antes de porem o pé na bola no ano que vem. Pelas estatísticas, fecharão a participação no Campeonato Brasileiro como campeões dos chutes errados, com um número incalculável de bolas para o mato.

Se fosse no campinho de terra da minha infância, o Atlético já estaria super endividado. Atrás de um dos gols havia um enorme buraco onde o povo jogava lixo. Além de ninguém se arriscar a descer e a se machucar, havia a possibilidade de contrair alguma doença, dado o mal-cheiro que exalava de lá.

Chamávamos de “inferno” aquele lugar. Como ninguém queria ir para o inferno, o time que atacava para aquele lado tinha que ser bom de mira. Já era um critério para a seleção das equipes. Até podia chutar fraco, mas tinha que ir na direção do gol. E o goleiro estava proibido de querer fazer bonito e espalmar a bola para fora.

O problema era quando a bola batia no zagueiro e ia para o buraco. De quem era a culpa? Quem deveria descer? Por consenso, resolvemos que, em casos assim, era melhor deixar a bola seguir o seu curso, sem obstáculos, mesmo que saísse dali um gol. “É melhor sofrer um gol do que ir para o inferno” – virou o nosso mantra.

Não defendo que, nos treinamentos, cavem um buraco atrás dos gols do CT de Vespasiano, mas acho que deveriam usar a velha “caixinha” para cada bola errada. Lembro que estudei algo do tipo nas aulas de Biologia, sobre o fisiologista russo Ivan Pavlov e a Teoria dos Reflexos Condicionados.

A descoberta de Pavlov foi importante para o desenvolvimento da psicologia comportamental e para o tratamento de fobias, diz o Wikipedia. O que só aumenta a minha convicção de que a sina do pé torto dos atacantes atleticanos tem cura. Minha sugestão é que, a cada chute errado, o jogador ganhe um choque elétrico.

Como já estamos voltando com hábitos de outros tempos, o choque poderia ser visto com naturalidade, como era há alguns anos em clínicas psiquiátricas. Método que também seria útil para outras formas de correção: errar o passe, um choque; cobrar errado o escanteio, três choques; derrota, dez choques em todo o time.

Mesmo que um jogador se destacasse, como foi o caso de Cazares nos jogos contra o Atlético Paranaense e o Bahia, ele não seria privado do choque nas derrotas. Como um professor meu de Geografia ensinou, é uma ótima maneira de o colega exigir melhor desempenho do outro em trabalhos em grupo.

Se nada disso der certo, meu amigo, o melhor mesmo será a hipnose, para logo esquecermos outro ano ruim.

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