Dicas para entrar no clima rapidamente

Aqui é Galo! / 17/10/2015 - 14h26
Fazer bonito até falhar naquela hora H. Já aconteceu comigo. E também com um punhado de gente, amigos meus que se gabavam da forte penetração e da exímia pontaria, com trocas constantes de passes na entrada da área. Mais tarde experimentaram o gostinho amargo de não ver a bola entrar.
 
Nervosismo, falta de confiança ou mesmo azar explicam esse momento de falibilidade, compartilhado pelo Atlético em várias partidas nesse Brasileiro. Quem conferir apenas os gols do jogo contra o Internacional, não terá ideia de quantas chances foram desperdiçadas, a partir de jogadas bem orquestradas.
 
O atleticano vive uma espécie de gozo interrompido: facilmente se extasia com a bola passando de pé em pé, de forma rápida e objetiva, rondando a meta inimiga até encontrar uma brecha que seja para uma entrada aguda e surpreendente. O arremate, porém, é de puro desleixo, como se quisessem se desfazer da bola.
 
Só não posso falar isso perto da minha prima Camila. Ela é terapeuta sexual, daquelas que interpretam cada frase sua com leituras freudianas, lançando teses escoradas nas pesquisas de Masters e Johnson, dupla que criou uma abordagem inovadora para os problemas sexuais. 
 
Quando reclamo de um Galo sem mira, ela dá um jeito de perguntar sobre o meu desempenho na cama. Justifica essa preocupação dizendo que, num jogo de 90 minutos, só me atenho à disfunção do desejo. E não adianta explicar que o gol é o grande momento do futebol, como diria o ex-narrador Alexandre Santos.
 
É dele também aquele bordão “apontou, guardou!”, dos tempos de um futebol viril e sem caixinhas de surpresas. Hoje o Viagra do esporte bretão é o escanteio, a bola levantada na área para uma cabeça qualquer jogá-la para dentro. Como se tudo se resumisse a duas possibilidades, pragmático como são algumas escolas europeias.
 
Levir Culpi não é nenhum guru do sexo, mas sabe que a bola parada pode decidir um jogo. Já assinalou várias vezes que é o lance mais difícil de ser marcado, ganhando aquele que ocupa o espaço antes. Virou isso: uma equação extraída da Física. Digo isso para a Camila, ao preferir um time com apetite como o do Galo.
 
Nenhum jogador está fazendo nada contra a sua vontade. Não há insatisfação com a qualidade que o outro proporciona. Enxergamos libido neles, aqui entendida como a energia que nos impulsiona para a vida. É a libido dominendi, o anseio de dominar, como distinguiu Santo Agostinho, ao escrever sobre as formas de libido.
 
O time vai para cima, cheio de ímpeto, muitas vezes num ataque suicida, fazendo valer a observação do psicanalista francês Lacan, sobre a relação da libido com a morte. O esforço em campo de Pratto, como se esgotasse todo seu fôlego, ou a correria para todos os lados de Luan são o retrato disso.
 
A cada bola perdida, Douglas Santos abaixa a cabeça e busca força para correr atrás do adversário, um trejeito que sinaliza para esse grande perde e ganha. Talvez esteja no DNA dos jogadores uma libido que, mesmo fraquejando no último toque, ainda nos faz acreditar no impossível. Como se pudéssemos, desculpem o linguajar, traçar a Gisele Bündchen.
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários